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Disparate de sábado à noite (parte 2)

Uma repetição: listas e mais listas. De objetos e deveres, coisas que devemos por em ordem, livros por analisar e episódios por entender. Itens da cozinha e da sala, tópicos de uma discussão já de antemão perdida e sem a qual passo bem. Listas de utensílios a levar ao conserto porque estão gastos ou falhos para o cotidiano.

Um prazer: o vento que sopra desde ontem, rajadas que atravessam a casa inteira, desarranjam as roupas e fazem as capas dos livros baterem como se vivas. Um vento nem agressivo nem tenro, apenas força.

Um fato banal: espetei o dedo ao cortar as unhas, cortei-as porque não sei digitar sem antes deixá-las rente, de modo que não arranhem as palavras, mas escorram, deslizem, fluam.

Um palpite: talvez chova porque lá fora está quente e o céu muito bonito, de um azul escuro junino que não vejo há muito.

Uma condição: agora bebo goles demorados. Escrevo e bebo, uma coisa parte de outra. Uma taça de repouso ao lado do computador como essas pessoas que esperam o ônibus na alta madrugada.

Uma platitude: ainda é junho, e o ano se demora. Aguardo o momento da disparada. Tenho pressa em andar, ir mais longe em direção aos outros dias.

Uma saudade: do cigarro que já não fumo há quase cinco meses. Menos do gesto, que disso tenho pavor, a afetação da mão que faz pender o cigarro, mas do sopro e da fumaça. Saudade da garganta repleta de aridez e dos olhos quentes.  

Uma dificuldade: parar e descansar, a vida tão cheia de obrigações. Ontem mesmo senti que as mãos se avermelhavam e os punhos inflamavam, as articulações enrijecidas de tantos dias percorridos batucando o quê? Essas histórias de uma república em queda livre, as notícias do banal, as mesmas dez ou quinze palavras: ele disse, ela falou, ele anunciou e por aí vai.

Uma mensagem: no prédio do vizinho a luz finalmente apagada.

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