Pular para o conteúdo principal

Aquela água toda

Agora já serenou, mas apenas uma hora e meia atrás desci para fumar depois de ter desligado todos os aparelhos eletrônicos de casa e em seguida percorri o corredor devagar, com medo de escorregar e dar com a bunda no chão molhado.

Eletros, TV, computador, videogame, que ficava emitindo uns bipes intermitentes que logo interpretei como um alerta mais brando para algo com que eu deveria me preocupar caso a situação se mantivesse naqueles patamares de risco. Achei melhor confiar nesse instinto previdente que raramente aciono mas cuja eficácia costumo respeitar sempre que ele faz essas aparições bissextas na minha vida.

Chovia. E como chovia. Chovia muito, a ponto de eu me convencer de que ir até a bica da esquina, que jorrava numa cascata volumosa, formando um Niágara na calçada, seria uma boa ideia numa manhã de quinta-feira na qual eu provavelmente não teria outra coisa melhor pra fazer além de ouvir uma gravação de 25 minutos e escrever um artigo sobre a reforma da Previdência.

Mas, por um motivo racional, eu desisti. Vi caírem dois ou três relâmpagos na porta de casa, e aquilo me dissuadiu de um modo especial. De repente, a sala estava iluminada como se meia dúzia de flashes houvesse disparado ao mesmo tempo. Trovões despencavam como pedras sendo deslocadas por trabalhadores da construção civil muito acima de nossas cabeças.

Os céus eram um canteiro de obras, e isso me assustou um pouco, de maneira que, a cada estrondo, sempre mais intenso e próximo que o anterior, eu me divertia também ao me perguntar por que cargas d’água esses fenômenos da natureza ainda nos metiam tanto medo, como se fôssemos os macacos originais enfiados em cavernas sem cultura e ciência que explicassem nada.

Me vi então meio encurvado e com muitos pelos no corpo atrás de uma touceira de mato numa savana. Eu era um símio convencido de que o fim da espécie havia chegado com aquelas nuvens carregadas de som e fúria e não haveria tempo suficiente para evoluirmos até inventarmos coisas maravilhosas como o Orkut, o brigadeiro e o volume três do Aviões do Forró.

Para alguns eventos avassaladores ou pessoas com personalidades muito frenéticas, dessas que levam de roldão tudo que encontram pela frente, minha avó tinha uma expressão muito curiosa que me acompanha ainda hoje: “chuva com vento”.

Era o que acontecia agora. Chovia forte e ventava muito, de maneira que o piso de casa foi inundado e as cortinas se desprenderam do mastro enquanto fui ao banheiro e voltei correndo para fechar as janelas. Uma chuva inclinada, quase deitada, que procura as brechas das portas e invade as casas, insidiosa.

Decidi cerrar e desligar tudo. No escuro, parado no centro geométrico da casa, acendi um cigarro. Foi aí que resolvi descer e espiar um pouco o movimento no térreo, inconscientemente movido por esse impulso jornalístico de que precisava testemunhar mais de perto esse evento extraordinário que era a chuva torrencial que passara incógnita sob os radares da Funceme, como quase tudo que acontece no que diz respeito aos assuntos meteorológicos neste Ceará.

Encontrei o porteiro, um rapaz baixo e corpulento, com o celular preso entre maxilar e o pescoço falando com alguém a quem dava ordens semidesesperadas, como “por favor, tira as coisas da tomada”, enquanto puxava a água empoçada no vão principal do prédio com um rodinho que me pareceu acanhado para aquela tarefa imensa.

O que se seguiu, pra resumir, foi que, para minha surpresa, o jornal estava seco, por isso passei a folheá-lo sem muito interesse, mas também porque estava na dúvida se o celular era um atrator de raios, que ainda caíam muito perto.

Sem conseguir responder por conta própria, e receando que pesquisar no celular se o manuseio do telefone naquelas condições representava risco soaria contraditório, me contentei em dar uma conferida nas tabelas de aposentadoria publicadas no jornal. Aquilo, sim, era terrível e me dava muito medo.      

Em nenhum momento, todavia, pude me concentrar, a atenção sempre desviada seja para a chuva, seja para o rodo, que ia criando no piso essas faixas enxutas em contraste com outras, molhadas, definindo uns padrões retangulares como os que eu desenhava no caderno escolar ainda criança e para os quais somente hoje encontro uma explicação na psiquiatria.

A impressão que eu tive, nesse instante, foi de que as nuvens haviam estacionado metros acima do nosso edifício e agora as descargas elétricas pingavam como goteiras do teto, algumas ameaçadoramente perto.

E de repente, muito derepentemente, a chuva parou, e o vento cessou, e o céu foi se abrindo, e as pessoas deixaram suas casas até a parada de ônibus metidas em roupas quentinhas, e de uma radiola próxima veio em ondas sincopadas uma música cuja melodia reconheci de imediato – era “Jenifer”, mas numa versão mais dançante, feita exclusivamente para as pistas.

Eu voltei ao apartamento, que estava abafado e com cheiro de cigarro. Abri portas e janelas e deixei que soprasse uma brisa pelos cômodos. Servi-me de uma xícara de café e liguei o computador.

Neste momento, quando chego ao final sem entender por que comecei a me ocupar dessa cadeia de banalidades, o sol reapareceu discreto, e nada lá fora faz crer que poucas horas atrás tudo era torvelinho e transmissão de eletricidade do céu para terra e vice-versa.

Então essa é a aparência das coisas depois que passa o vendaval. Um pouco de apatia, um pouco de tranquilidade, e entre elas uma camada de ceticismo que recobre os últimos acontecimentos com um véu de suspeição. 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Terminando o ano

  Esse foi o ano dos bebês reborn e dos labubus, dos dispositivos de substituição e transferência de afeto, da desafetação e do dar de ombros para o desfile acelerado da vida. Ano do boom da IA e da promessa de um futuro edênico no qual o virtual e o real se equivalem, ano da tiktokzação do sofrimento e da grande diáspora das redes. Ano da fuga das galinhas, dos filmes de terror e do Neymar, ano da prisão e da romantização da prisão dos famosos e do presidente em sua eterna crise de soluço. Ano do vazamento e da sorte de adivinhar os temas sobre os quais milhões sonham em escrever na hora da prova, ano do mecanismo da sorte, da estrutura secreta que produz o futuro. Ano do ostracismo do panetone e da reabilitação do ovo, ano da graça e também da desgraça, ano do recolhimento meditabundo e do desbunde, da ioga e do forró raiz. Ano das desescritas do eu, da arte do baixo ventre, da grafia do corpo sem corpo, enfim, ano de toda sorte de golpe mercadológico para vender mais no país q...

Coca normal

A moça do caixa pergunta se a Coca “é normal ou zero”. Respondo: “normal”, mas logo me assombro com a normalidade angustiante da Coca normal. Olho de repente para a lata vermelha com letras brancas, e o mundo gira em falso. Tento identificar na sua forma geométrica a qualidade que lhe conferiria um enquadramento dentro das expectativas de um padrão de consumo, o que por certo justificaria essa escolha vocabular em contraste com a anormalidade de outra Coca, esta classificada como “zero”, logo como desviante. “Normal”, repito, e por normal quero dizer o quê? Já não sei, não faço ideia. Rodopio no espaço-tempo semântico. Mas continuo a dizer normal sempre que me pedem para escolher entre esta e aquela, como alguém que gosta mais de maçã do que de uva ou banana. Estou parado na fila, ouço o farfalhar das línguas estalando de impaciência atrás de mim. Até esboço um sorriso. Um meio sorriso que se arma não ironicamente para sinalizar que os termos dessa transação linguística são outros, ou ...

Artes da lentitude

  Lentitude: trata-se de uma dessas palavras com que topei ao acaso e que remete a toda ação que pretenda de algum modo frear o tempo, estancar a corrida, sanar o descompasso e retardar essa defasagem entre o biológico e o social que se instaura no capitalismo tardio (ou tardo-capitalismo, ou pós-capitalismo tardio, ou pós-modernidade tardia etc.). Ler volumes antigos ou novos, quem sabe, ver filmes inteiros, ouvir discos até o final, demorar-se em qualquer atividade cuja realização requeira um grau maior e já em desuso de atenção, examinar de perto e com genuíno interesse o crescimento das plantas e a qualidade da água dos peixes, antes que morram por falta de oxigênio. Enfim, ter com as coisas uma relação estendida e continuada, eu diria desligada de qualquer noção de esgotamento pelo consumo, de pedagogia mercantil, de fruição pelo fragmento e experimentação de uma miudeza que se basta porque dispensa o conhecimento que ultrapasse o ponto. Suspeito que a gente tenha se content...