Pular para o conteúdo principal

Um novo arquivo


Nomeio o arquivo. Em seguida começo a escrever. Amar é passar a chamar o impalpável pelo nome. Antes não o conhecíamos, agora é familiar, um rosto, um cheiro, uma certa topografia afetiva, o estranho progressivamente tornando-se mais e mais perto, o longínquo criando braços nesta outra margem.

O arquivo é despretensioso. Chama-se “contos”, e nele vou juntando textos escritos nos últimos cinco ou seis ou dez anos, no caso de alguns mais antigos que remontam a outra vida.

A maior parte, no entanto, é composta por material recente, dois anos, no máximo. Tenho dificuldade de ir mais longe, então me apego a esse agora escapadiço que tento reter a um custo alto.

O custo é ir cavando mais fundo enquanto escrevo, varejando feito mosca um prato de comida ou um bicho solto no pasto. Cavar como minerar. É com isto que escrever se parece em muitos momentos, mediante ferramentas cegas e inadequadas, ir batendo e lascando o metal contra pedras afiadas à procura sabe-se lá de quê, sem qualquer garantia de encontrar.   

Queria algo como o livro de Turguêniev, histórias de aventuras, tardes cruzando planícies, noites gastas em alguma choupana, um estranho com quem se esbarra na aldeia. Ou o de Knausgard, o banal subitamente transcendente, uma punheta elevada à categoria de arte.

Mas o que tenho é o banal mesmo, sem fetiches nem lustre de qualquer tipo. Apenas o cotidiano opaco transcorrendo num dia morno. Relatos episódicos e impressionistas anotados como borrões ou pinceladas de criança.

Registro uma frase: a testa vincada, por exemplo. É o princípio de algo, numa testa assim posso imaginar que se concentrem preocupações e expectativas, que é possível antever toda uma sorte de pequenas derrotas e modestos sucessos. 

Vincos longitudinais como pistas de um aeroporto vazio.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

“Romerobritização” de Fortaleza

  Foi apenas quando li o anúncio prometendo uma “Aldeota no Eusébio” que me dei conta dessa “romerobritização” de Fortaleza, ou seja, a paulatina substituição de seus signos mais antigos (nem sempre bonitos, mas históricos) por uma estética não apenas nova, mas cafona e estridente, facilmente replicada em qualquer lugar. Uma metrópole feita por IA, com padrões copiados aqui e ali, espigões e requalificações, prédios espichados e um centro urbano ao Deus dará. Enfim, um aterro visual que impõe à cidade o apagamento de seu tecido e a rasura de seus marcos, mas sobre isso tenho falado tanto que me dá certa gastura. Um exemplo é a ponte velha, agora convertida em problema para o qual é preciso encontrar uma solução rapidamente, antes que algum enxerido sugira conservar o espaço, dando-lhe melhor uso, ou, o que é pior, ouvir as comunidades do entorno. E a resposta naturalmente é derrubá-la, já que não se pode atirá-la no mato, como seria do feitio do nativo urbano com ares de cosmopolit...

Coisa de pobre

  Inspirado no livro da moda, e dizer que um livro está na moda já pressupõe viés de classe num país de não leitores, pensei no que seriam as coisas de pobre. Seu ethos e marcas, suas especificidades e ritualísticas, suas vestimentas e modos de comer, habitar e viajar. Enfim, o conjunto mais ou menos heterogêneo de características (gostos, preferências, escolhas) que ajudam a montar a imagem mental que se tem do pobre no Brasil, no Nordeste, no Ceará. Tal empreitada antropológica iria requerer que o pesquisador deixasse de lado essa verdadeira tara da arte atual (cinema, televisão e mesmo a literatura) por retratar o 1% dos mais endinheirados, atraída sabe-se lá pelo quê – talvez pelas zonas cinzentas de moralidade de uma casta de privilegiados, como se o pobre fosse, além de desprovido materialmente, um quadro sem forma e fundo que não se prestasse a dramaticidades à altura das ambições estéticas contemporâneas. Como se fosse pobre também em valores, sentimentos e complexidade sub...

Brasil para colorir

Fiquei pensando nessa febre dos livros de pintar, os Bobbie Goods, brochuras terapêuticas que lideram rankings de vendas em eventos literários, os primeiros depois daquela pesquisa cujos resultados mostraram que o Brasil é majoritariamente um país de não leitores. Ou seja, somos mais como uma sociedade para colorir do que para ler, de preencher do que de entender, de repetir maquinalmente o gesto do que de suspender mecanismos rotinizados. Mais de contornar os problemas do que de deixar de lado esses “good feelings”, de vagarosamente ir ordenando tudo conforme uma paleta selecionada ao gosto de quem manuseia esse número finito de cores do que de aceitar que a realidade é informe e multicor. Enfim, talvez haja nessa mania uma chave qualquer para entender sabe-se lá que problemas atávicos, que retornam sempre pela porta dos fundos e aos quais respondemos com esses expedientes. Afinal, o que significa essa opção pela pintura em desfavor da palavra, do andamento irrefletido da mão no lugar...