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Fragmentos

1.
A conversa, o rosto contra os azulejos portugueses. Uma tarde funda na memória outra realidade, a realidade cede facilmente, e então o que vemos é sempre esse borrão de sonhos despedaçados. 

A lembrança de que chorara. Sim, havia sido choro. No meio da tarde, pessoas indo e voltando, ele parado, os olhos vidrados num tempo futuro que havia se tornado passado de repente e que novamente saltara para a frente.  

Subitamente calmo, como nos piores momentos da vida. Incapaz de levantar a voz, os gestos como que coagulados no dia. Restos de si para conjurar, fragmentos, cacos de mentiras. Era todo uma violência que irrompera nos últimos meses. Todo o amor. 

Não disseram nada por muito tempo. Quis acender um cigarro, precisava fumar urgentemente, mas temia que isso o distraísse. E ele não queria estar longe. Nunca mais. Apenas a distância em falso entre as duas colunas de azulejos. 


2.
Sentei no sofá e esperei que algo acontecesse, mas o que vi foi basicamente esse senhor dançando na ponta dos pés enquanto a esposa descansava arreada numa cadeira, abanando-se com uma revista semanal. De repente, ela pergunta, um tanto irritada, se ele já tinha se resolvido, ao que ele vira e responde: talvez.

Então foi isso: talvez esse casal já idoso tenha ido dormir hoje certo de que fez a melhor escolha, mas talvez não. Na hora, porém, eles até me pareceram felizes. Foi a pergunta que me fiz: vocês dois são felizes?

Repeti o mesmo com cada pessoa que cruzou meu caminho.


3. 
O sofá desarrumado no dia seguinte. Foi até a cozinha, abriu a geladeira. Cada objeto assumindo progressivamente essa feição de familiaridade, cada sombra a sombra de um contraste que ele reconhecia agora mais que antes. A estranheza se dissipando. No banheiro um cheiro de tantas tardes. Na parede quadros com os quais se habituara. Texturas e pedaços de vida. 

Andava descalço como se se certificasse de que pisava e sob os pés havia chão, um chão ora macio, ora duro e áspero, um chão vacilante e concreto. Andava como se mapeasse. Andava para estar presente e para não fugir. Andava como se já amasse e o amor fosse então essa estação, mas também mobilidade.  

Lembrou da noite anterior, a garrafa de vinho com a rolha entalada. Riu. Pensou na vergonha que seria não abri-la naquele momento. Por incrível que pareça, venceu a garrafa. Nunca esquecerá esse dia. Por uma razão.

A força que o dominava quando em presença de. O fato bruto, incontornável, de que era isso. Não era? Era, ainda acreditava. 

Depois a carta enviada de longe. A mensagem instantânea o surpreendera pelo tom, mas não pelo conteúdo. Uma firmeza de propósito que punha tudo em alto relevo. Logo o carnaval. A vida sobressaltada. 

Almofadas pelo chão, a playlist a ferro e fogo. O vento já quente dos meses finais, o janelão e lá fora a selva selvagem de Dante chamando para atravessar o inferno que viveria nos próximos dias. 

Selva selvagem, anotara a expressão e nunca mais esquecera. 

Uma natureza morta. Uma natureza ainda viva. Duas feras em combate, ambas frágeis, ambas cheias de um furor vital que agora se consumava em luta corporal. 

O mesmo balé de mãos e pernas. Corpo a corpo, corpo contra corpo. Assim o mundo tinha sido criado, pensou. Uma explosão tão forte que joga astros e estrelas em colisão e produz essa fagulha inaugural que levará anos para finalmente ganhar legibilidade. 

E talvez nunca venha a ser de fato compreendida. 

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