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Extraviado

Um homem se perdeu no mar.

Entrou, não foi mais visto. Aeronaves sobrevoam, dão rasantes, barcos partem em busca de algo que possa levar a um lugar que não existe. O mar não fixa barreiras.

Não se pode dizer que afundou, tampouco que está irremediavelmente perdido. A procura leva horas, amanhã será retomada logo cedo. Estarei dormindo ainda quando um grupo numeroso terá os olhos vidrados nas águas.

A foto que estampa a reportagem do jornal é de um fim de tarde.  Noutro lugar, noutra parte, talvez um casal se beije olhando o mesmo mar. A mesma paisagem repete-se ora como agonia, ora como sereno.

Talvez não seja ainda o momento de perguntar quando ele virá. Se virá. E como virá. Inês é morta?

Leio a manchete: desaparecido. Mar. Homem. E imediatamente me coloco a reunir sob o mesmo teto o conjunto indistinto de sentimentos que cada uma dessas palavras mobiliza.

Um homem extraviado em pleno domingo. Tinha braços e pernas feitos para isso, os músculos metodicamente trabalhados em séries de treinos, a respiração em compasso com as ordens do cérebro, o fôlego ajustado aos batimentos cardíacos e o coração acostumado a acelerações e desacelerações. 

E, mesmo assim, foi e não tornou.  

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