Pular para o conteúdo principal

Ocultista

Escreveu no Whatsapp “preciso de um oculista” e o corretor mudou pra ocultista, talvez mais consciente do que de fato precisava, não consertar a vista, os olhos que ardiam e a leitura que vinha se tornando penosa de uns tempos pra cá, mas investir no sobrenatural. 

Agora que tudo no plano terreno desandava, achou até simpático que um aplicativo, sempre tão impessoal, sugerisse por meios tortuosos que a razão dos seus problemas não era um defeito dos olhos, mas da alma, e que a resposta estaria logo ali, numa profissional das ciências mágicas. E tudo isso numa sexta-feira 13.

Quem sabe fosse mesmo o caso de adivinhar outro sentido no corriqueiro, virar a contrapelo os dias e as horas e neles enxergar uma mensagem criptografada, uma para a qual não tinha o dom de ler, não era alfabetizado nessas artes, cartas de baralho, búzios, borra de café e, a mais recente de que tivera notícia, as pregas no cu.

Sim, uma mulher estava fazendo certo sucesso lendo o cu das pessoas e vendo ali, nesse orifício antes reservado só às necessidades do corpo, o futuro de cada uma delas, onde fracassariam, onde teriam sucesso, quando e como encontrariam seus amores, em que circunstâncias misteriosas estariam frente a frente com a morte.

Não deixa de haver ironia que alguém tenha intuído que tudo se concentra no cu, que dele não escape a sorte de ninguém, como um buraco negro que fagocita a matéria a seu redor o cu seria para o restante do corpo um centro gravitacional em torno do qual os dias e as noites e todo o vivido se comprimiriam ao mínimo. 

E era nesse mínimo do humano que a vidente se confiava. Essa pitonisa do anal fincava sua bandeira e cravava seus dois olhos graúdos à procura de tatear os sentidos ocultos no cu. 

Achava, porém, que seu problema era realmente a vista e não uma questão de estar cego para os detalhes do mundo, para o que acontecia debaixo do próprio nariz ou em qualquer outra parte. Um caso mais de substituir os óculos e recuperar a capacidade de ler do que de revirar o tempo e apostar nos dados ou cartas ou fosse lá em que expediente miraculoso.

Seria mesmo? A correção textual, por boba e maquinal que tenha sido, levou-o a pensar em visitar uma cartomante. Nunca havia encontrado uma delas, jamais o interesse pelas coisas que supostamente acontecem longe do arbítrio e da ciência. Além do fato de que tinha medo. 

Sim, medo do que lhe diriam, medo do segredo, medo até do ambiente opressivo que supunha alimentar esses lugares aonde as pessoas vão para conhecer o que não sabem mas precisam saber, um certo clima de desespero porque todas as alternativas já se esgotaram, tudo está fora do alcance e os olhos ardem com frequência.  

Mas isso era antes. Agora as coisas eram esse rodamoinho no centro do qual ele tentava inutilmente se agarrar a bordas que tampouco existiam. Agora tinha pés e mãos mas não se valia deles. Agora continuava a ver mas a opacidade de tudo o impedia de traduzir o que via e lia em letras e nomes legíveis. Tudo um borrão, umas nanhuras sem sentido algum, um amontoado de signos sem préstimo. 

Talvez não fosse ruim desistir do oculista e discar um número oculto na agenda. Ouvir a voz feminina marcar uma consulta para dali a alguns dias e nessa consulta escutar que seu futuro seria bom, haveria paz e até um amor feliz. 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

“Romerobritização” de Fortaleza

  Foi apenas quando li o anúncio prometendo uma “Aldeota no Eusébio” que me dei conta dessa “romerobritização” de Fortaleza, ou seja, a paulatina substituição de seus signos mais antigos (nem sempre bonitos, mas históricos) por uma estética não apenas nova, mas cafona e estridente, facilmente replicada em qualquer lugar. Uma metrópole feita por IA, com padrões copiados aqui e ali, espigões e requalificações, prédios espichados e um centro urbano ao Deus dará. Enfim, um aterro visual que impõe à cidade o apagamento de seu tecido e a rasura de seus marcos, mas sobre isso tenho falado tanto que me dá certa gastura. Um exemplo é a ponte velha, agora convertida em problema para o qual é preciso encontrar uma solução rapidamente, antes que algum enxerido sugira conservar o espaço, dando-lhe melhor uso, ou, o que é pior, ouvir as comunidades do entorno. E a resposta naturalmente é derrubá-la, já que não se pode atirá-la no mato, como seria do feitio do nativo urbano com ares de cosmopolit...

Coisa de pobre

  Inspirado no livro da moda, e dizer que um livro está na moda já pressupõe viés de classe num país de não leitores, pensei no que seriam as coisas de pobre. Seu ethos e marcas, suas especificidades e ritualísticas, suas vestimentas e modos de comer, habitar e viajar. Enfim, o conjunto mais ou menos heterogêneo de características (gostos, preferências, escolhas) que ajudam a montar a imagem mental que se tem do pobre no Brasil, no Nordeste, no Ceará. Tal empreitada antropológica iria requerer que o pesquisador deixasse de lado essa verdadeira tara da arte atual (cinema, televisão e mesmo a literatura) por retratar o 1% dos mais endinheirados, atraída sabe-se lá pelo quê – talvez pelas zonas cinzentas de moralidade de uma casta de privilegiados, como se o pobre fosse, além de desprovido materialmente, um quadro sem forma e fundo que não se prestasse a dramaticidades à altura das ambições estéticas contemporâneas. Como se fosse pobre também em valores, sentimentos e complexidade sub...

Brasil para colorir

Fiquei pensando nessa febre dos livros de pintar, os Bobbie Goods, brochuras terapêuticas que lideram rankings de vendas em eventos literários, os primeiros depois daquela pesquisa cujos resultados mostraram que o Brasil é majoritariamente um país de não leitores. Ou seja, somos mais como uma sociedade para colorir do que para ler, de preencher do que de entender, de repetir maquinalmente o gesto do que de suspender mecanismos rotinizados. Mais de contornar os problemas do que de deixar de lado esses “good feelings”, de vagarosamente ir ordenando tudo conforme uma paleta selecionada ao gosto de quem manuseia esse número finito de cores do que de aceitar que a realidade é informe e multicor. Enfim, talvez haja nessa mania uma chave qualquer para entender sabe-se lá que problemas atávicos, que retornam sempre pela porta dos fundos e aos quais respondemos com esses expedientes. Afinal, o que significa essa opção pela pintura em desfavor da palavra, do andamento irrefletido da mão no lugar...