Pular para o conteúdo principal

Mutilados

Disse que morderia e de fato mordeu. Restou essa marca com a qual ela não saberia bem como lidar no dia seguinte. Disfarçou com pó e um lenço ao pescoço, mas em casa, sozinha, orgulhava-se diante do espelho. Uma marca, finalmente. Não abriria mão. Uma primeira marca que não era de nascença, tampouco de acidente como a que levava no dorso da mão esquerda. 

Mordeu mais vez uma vez, agora sem avisar. No braço e depois na bunda, duas arcadas afundando na carne branca com precisão. Podia adivinhar o desenho irregular dos dentes apenas olhando pra elas. Os caninos mais pontiagudos que o normal porque desde criança os de cima não encaixavam nos de baixo. Como não havia fricção, tinham ficado assim, amolados, perfurantes, dentes como de cachorro e não como os de gente.

Um dia foi a vez dela. Machucou o lóbulo da orelha, ele protestou. Então pediu que parasse, mas logo foi o peito. Deixou uma área roxa que depois esverdeou até se perder, uma vaga mancha cinza que poderia ser qualquer coisa. Alguém que houvesse apagado a ponta do cigarro no coração.

Na semana seguinte voltou a tirar um pedaço de carne. Ele se irritou, brigaram. Era fingimento de ambos. Foi trabalhar com parte do corpo faltando. Não sentia como se fosse menos do que era. Se alguém perguntasse, diria que tinha se metido numa briga na esquina. Um animal feroz, socos e pontapés. Finalmente choro e sangue. 

Eram como dois mutilados, tinham pedaços de si pra trás, um rastro de pernas e braços, cabelo e dedos, mãos e articulações, ossos e cartilagens. À ideia romântica de que se completariam responderam com lanhos na própria carne. Sulcos pelas costas, nervuras como avenidas ligando a cabeça ao pé. 

Ela não tinha mais o bico do seio esquerdo, tantas foram as vezes em que lhe chupara o peito e mordera. Ele estava sem pele no pescoço e nos braços, tantos os arranhões e golpes de unha.

Dois bichos famintos em luta até a exaustão. 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

“Romerobritização” de Fortaleza

  Foi apenas quando li o anúncio prometendo uma “Aldeota no Eusébio” que me dei conta dessa “romerobritização” de Fortaleza, ou seja, a paulatina substituição de seus signos mais antigos (nem sempre bonitos, mas históricos) por uma estética não apenas nova, mas cafona e estridente, facilmente replicada em qualquer lugar. Uma metrópole feita por IA, com padrões copiados aqui e ali, espigões e requalificações, prédios espichados e um centro urbano ao Deus dará. Enfim, um aterro visual que impõe à cidade o apagamento de seu tecido e a rasura de seus marcos, mas sobre isso tenho falado tanto que me dá certa gastura. Um exemplo é a ponte velha, agora convertida em problema para o qual é preciso encontrar uma solução rapidamente, antes que algum enxerido sugira conservar o espaço, dando-lhe melhor uso, ou, o que é pior, ouvir as comunidades do entorno. E a resposta naturalmente é derrubá-la, já que não se pode atirá-la no mato, como seria do feitio do nativo urbano com ares de cosmopolit...

Coisa de pobre

  Inspirado no livro da moda, e dizer que um livro está na moda já pressupõe viés de classe num país de não leitores, pensei no que seriam as coisas de pobre. Seu ethos e marcas, suas especificidades e ritualísticas, suas vestimentas e modos de comer, habitar e viajar. Enfim, o conjunto mais ou menos heterogêneo de características (gostos, preferências, escolhas) que ajudam a montar a imagem mental que se tem do pobre no Brasil, no Nordeste, no Ceará. Tal empreitada antropológica iria requerer que o pesquisador deixasse de lado essa verdadeira tara da arte atual (cinema, televisão e mesmo a literatura) por retratar o 1% dos mais endinheirados, atraída sabe-se lá pelo quê – talvez pelas zonas cinzentas de moralidade de uma casta de privilegiados, como se o pobre fosse, além de desprovido materialmente, um quadro sem forma e fundo que não se prestasse a dramaticidades à altura das ambições estéticas contemporâneas. Como se fosse pobre também em valores, sentimentos e complexidade sub...

“Urikianas”

De memória, lembro do bar e o do rosto miúdo atrás dos olhos apertados, reluzentes, afogueados. Que ano era aquele? Tinha pressa, queria conversar, mas já estava de partida. Durante todo esse tempo, tive essa impressão de que era dessas pessoas que falavam enquanto se despediam, instaurando nesse movimento uma presença-ausência precocemente exibida. Parte de si ia embora, outra estava apenas de chegada, num desencontro de corpos e de tempos. A quem me perguntasse, dizia: estou esperando o livro que Urik escreve, tenho certeza de que guarda algo, de que é o portador de um segredo muito bem escrito, de que o que se lê é apenas ensaio, um jogo que se arma nessa vacância de espírito, exercícios de prazer. Então deu-se o sumiço. Soube que viajara, que estava longe, que exorbitara as fronteiras, que se desvanecera. Onde agora? Minas seria um paradeiro possível, no Rio fora visto entre árvores, em São Paulo uma fantasmagoria, esse perfil sem contorno que às vezes assumia mesmo em Fortaleza,...