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Borges e o amor

É uma tarefa borgiana, eu disse, e me referia sobretudo a percorrer corredores repletos de lembranças e neles encontrar portas que se abrem para outras portas, que contêm outros corredores e novas portas que dão para jardins vazios, amplos espaços nos quais mal ouvimos o som que produzimos.

Uma sucessão de elos que se ligam a outros elos, bibliotecas, livros, portas e janelas, pessoas às voltas com pessoas sem nome nem destino. Alguém que aspira de leve o ar e sente que está perto de encontrar o que procura.

Portas sem maçaneta, entreabertas, janelas que não se fecham, bancos e copas de árvores que filtram a luz do sol. A luz coada do sol incidindo obliquamente sobre os cabelos, o vestido amarelo, as mãos postas sobre as pernas.

Um universo borgiano é logicamente concebido pela falta de lógica que preside esse raciocínio segundo o qual há um pensamento por trás de cada coisa, cada coisa ocupando um lugar e cada lugar sendo destinado por natureza a uma ideia da qual não temos nada senão vestígio.

A lógica borgiana é cansativa, circular, cheia de vaivém. Opera no campo do ilusionismo, é insegura e cediça como um labirinto. Quase nunca leva a qualquer termo, é sempre um ir em frente sem garantias de chegar ao final ou encontrar uma resposta.

E agora o pulo do gato, esse animal literário. O amor, acreditem se quiserem, é borgiano por excelência, seja por suas portas e janelas, seja por seus corredores através dos quais andamos um dia e uma noite e não vislumbramos saída, exceto todas as outras já testadas e descartadas.

Um amor borgiano consiste nesse sentimento sem contornos, apenas cheiro e cor e força. É um torneio de prestidigitação no qual os amantes concordam em enganar-se sem prejuízo para o fim. É um truque no qual investem e se sentem traídos se um dos dois revela seus segredos.

O amor é uma gincana, uma gangorra e um livro de areia que folheamos em busca de referências e nos surpreendemos com números e figuras que mudam à medida que o tempo passa. 

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