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Notas

1. Pessoas que talvez você conheça, sugere o Facebook. Mas estranho que a rede social, que não me conhece pessoalmente, nunca me viu, não sabe o que gosto de comer no domingo de manhã, sugira agora como se fôssemos velhos amigos meia dúzia de rostos estranhos com base apenas em outras pessoas que talvez eu realmente conheça, embora, na prática, sei que não conheço, tampouco elas a mim.

2. Depois de tanto tempo, hoje finalmente o fim do mundo, que, como todo fim, vem sendo permanentemente adiado, o fim como essa ideia de algo que jamais se conclui, o fim sempre vivido como uma conversa cujo final avistamos empoleirado nas dunas móveis, o fim como um selim sobre o qual sentamos um instante e depois fingimos que não é pra gente.

3. Passo hidratante, a pele ressacada do sol, me recrimino por não ouvir conselhos, nem os mais bobos do tipo use creme ou proteja sua pele ou veja se já não escreveu o bastante. Daí as bolhas pelas costas. Tiro a camisa e examino. Estão horríveis. Queria só uniformizar o bronzeado. Penso nisso: os braços em duas cores, uma branca e outra marcada do sol. As pernas igualmente bicolores. Penso nos conselhos: finja que não é contigo, passe mais tempo com amigos, evite esse tipo de companhia ou, o pior de todos, coloque-se no lugar do outro e tente enxergar o estrago que causa sempre que adota esse tipo de comportamento.

4. À noite deito no chão pra ver um filme e pego no sono. Viro e tento encontrar uma posição confortável, mas estou no chão e no chão dificilmente achamos qualquer coisa que valha a pena, salvo quando topamos com dinheiro ou um grampo de cabelo que a mulher que amamos deixou cair e nós tivemos a sorte de encontrar.

5. O filme fala de um casal encarando o seu armagedom pessoal. Na verdade, são dois filmes do mesmo diretor, ambos sobre casais em crise. Topei com ele casualmente, entrou na Netflix e decidi assistir. É de 2005. Mais de dez anos. Apenas agora dou por mim que ele sempre esteve ali. Quando eu era outra pessoa, ele já estava lá. Mas só agora apareceu. E está disponível, pronto pra passar na televisão. Entrou na Netflix, como se diz então.  Como algo que passasse a existir, figurasse a partir de agora num conjunto acessível de experimentações. Tem na Netflix? Tem. Então está a meu alcance, posso encontrá-lo e vê-lo e depois comentar com amigos. 

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