Pular para o conteúdo principal

Mãe Jussara

Tenho um recorte de jornal nas mãos, mas não sei o que fazer com ele. É um pedaço da Mãe Jussara, um trecho de aconselhamento amoroso, gênero clássico nos folhetins.

Nele a cartomante, não sei se posso chamar assim, sugere a uma mulher que encare o fim do relacionamento com naturalidade. E conclui: você ainda será muito feliz. Não recomenda consulta a astros, tampouco receita mandingas para trazer o homem de volta à casa. Apenas joga a real: o amor acabou. Seja corajosa e mude tudo ao seu redor. Não há como recuperar o que foi perdido. Será melhor assim. E fim de papo.

Eu não costumo guardar papéis, sequer minhas colunas guardo mais. Vão todas pro lixo, todas acumuladas em pilhas no quarto dos fundos que depois serão recolhidas pelo porteiro da noite e entregues a um catador de material reciclável. Mas esse pedaço eu guardei. Estava dobrado como um recadinho enviado por alguém do futuro.

Na minha estante, atrás de um livro, perto de um Pynchon e de ‘Nossas noites’, convenientemente mantido a salvo de uma faxina, mas não escondido o bastante para que nunca mais o achasse. Como as coisas que encontramos porque precisamos encontrar.  

Desdobrei e li devagar, procurando descobrir por que estava ali, por que tinha guardado, se fora eu mesmo e não outra pessoa que o enfiara entre os livros que nunca olhava muito bem, por que tinha chamado atenção.

Vi que era o tom desencantado da Mãe Jussara o que importava.  E me dei conta de que também ela poderia sofrer suas dores. E era isso, o fato de que falava do coração, o que interessava.

Como uma cartomante resolve suas agonias da alma? Faz do próprio remédio um anteparo, recorre a amigas, escreve no baralho, lê as próprias mãos? Ignora sinais? Envia a si mesma uma carta na qual diz coisas que diria a qualquer uma?

Era um mistério o modo próprio como uma mulher que vê o futuro e adivinha a sorte alheia solucionaria as coisas que aconteciam a um palmo do nariz.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

“Romerobritização” de Fortaleza

  Foi apenas quando li o anúncio prometendo uma “Aldeota no Eusébio” que me dei conta dessa “romerobritização” de Fortaleza, ou seja, a paulatina substituição de seus signos mais antigos (nem sempre bonitos, mas históricos) por uma estética não apenas nova, mas cafona e estridente, facilmente replicada em qualquer lugar. Uma metrópole feita por IA, com padrões copiados aqui e ali, espigões e requalificações, prédios espichados e um centro urbano ao Deus dará. Enfim, um aterro visual que impõe à cidade o apagamento de seu tecido e a rasura de seus marcos, mas sobre isso tenho falado tanto que me dá certa gastura. Um exemplo é a ponte velha, agora convertida em problema para o qual é preciso encontrar uma solução rapidamente, antes que algum enxerido sugira conservar o espaço, dando-lhe melhor uso, ou, o que é pior, ouvir as comunidades do entorno. E a resposta naturalmente é derrubá-la, já que não se pode atirá-la no mato, como seria do feitio do nativo urbano com ares de cosmopolit...

Coisa de pobre

  Inspirado no livro da moda, e dizer que um livro está na moda já pressupõe viés de classe num país de não leitores, pensei no que seriam as coisas de pobre. Seu ethos e marcas, suas especificidades e ritualísticas, suas vestimentas e modos de comer, habitar e viajar. Enfim, o conjunto mais ou menos heterogêneo de características (gostos, preferências, escolhas) que ajudam a montar a imagem mental que se tem do pobre no Brasil, no Nordeste, no Ceará. Tal empreitada antropológica iria requerer que o pesquisador deixasse de lado essa verdadeira tara da arte atual (cinema, televisão e mesmo a literatura) por retratar o 1% dos mais endinheirados, atraída sabe-se lá pelo quê – talvez pelas zonas cinzentas de moralidade de uma casta de privilegiados, como se o pobre fosse, além de desprovido materialmente, um quadro sem forma e fundo que não se prestasse a dramaticidades à altura das ambições estéticas contemporâneas. Como se fosse pobre também em valores, sentimentos e complexidade sub...

Brasil para colorir

Fiquei pensando nessa febre dos livros de pintar, os Bobbie Goods, brochuras terapêuticas que lideram rankings de vendas em eventos literários, os primeiros depois daquela pesquisa cujos resultados mostraram que o Brasil é majoritariamente um país de não leitores. Ou seja, somos mais como uma sociedade para colorir do que para ler, de preencher do que de entender, de repetir maquinalmente o gesto do que de suspender mecanismos rotinizados. Mais de contornar os problemas do que de deixar de lado esses “good feelings”, de vagarosamente ir ordenando tudo conforme uma paleta selecionada ao gosto de quem manuseia esse número finito de cores do que de aceitar que a realidade é informe e multicor. Enfim, talvez haja nessa mania uma chave qualquer para entender sabe-se lá que problemas atávicos, que retornam sempre pela porta dos fundos e aos quais respondemos com esses expedientes. Afinal, o que significa essa opção pela pintura em desfavor da palavra, do andamento irrefletido da mão no lugar...