Pular para o conteúdo principal

Contra o mar

Um homem no calçadão. Eu passava de bicicleta. Ele estava lá, parado feito uma das pedras. Mas algo não serenava. Recebe fotos, imagens contidas num álbum, um desses álbuns que toda família guarda e que depois, perto do Natal ou num domingo, alguém decide exumar no meio da sala. 

Outro homem se aproxima enquanto eu encosto a bicicleta metros adiante, à sombra. Os homens conversando e eu assistindo, tapando o sol que vinha, mais claridade que sol, fazendo aba com a mão direita e com a esquerda segurando a bicicleta, que prendia também com as pernas, mais ou menos como se estivesse montado num cavalo. 

O segundo homem vai embora. O primeiro fica. Caminha até as pedras onde as ondas quebram, onde os vasilhames e restos do tempo doméstico se sedimentam e viram esse coral de quinquilharias imprestáveis. 

O homem olha um tempo. Tem os braços pendentes do corpo como frases desconexas num texto que vai perdendo o sentido aos poucos. E então os levanta, aproximando as mãos da cabeça, num esforço de enxergar algo que a luz teima em escurecer. A vista contra a luz escurece. 

Eram fotos, claro que eram, e o homem estuda cada uma delas de um modo clandestino ou nostálgico, não dá pra ter certeza. Apenas que, ali, parado nas pedras, às 11 horas e pouco de um dia de semana, tinha interrompido os afazeres, se é que havia algum, e ficado a olhar para um punhado de pedaços de tempo, de frente para o mar, recordando ou tentando esquecer, que é tudo a mesma coisa. 

E, nesse movimento, marcado por ondas e temperado nesse sol, tinha-se passado mais ou menos meia hora. Um pouco mais, talvez. Não dá pra ter certeza disso também.

Postagens mais visitadas deste blog

“Romerobritização” de Fortaleza

  Foi apenas quando li o anúncio prometendo uma “Aldeota no Eusébio” que me dei conta dessa “romerobritização” de Fortaleza, ou seja, a paulatina substituição de seus signos mais antigos (nem sempre bonitos, mas históricos) por uma estética não apenas nova, mas cafona e estridente, facilmente replicada em qualquer lugar. Uma metrópole feita por IA, com padrões copiados aqui e ali, espigões e requalificações, prédios espichados e um centro urbano ao Deus dará. Enfim, um aterro visual que impõe à cidade o apagamento de seu tecido e a rasura de seus marcos, mas sobre isso tenho falado tanto que me dá certa gastura. Um exemplo é a ponte velha, agora convertida em problema para o qual é preciso encontrar uma solução rapidamente, antes que algum enxerido sugira conservar o espaço, dando-lhe melhor uso, ou, o que é pior, ouvir as comunidades do entorno. E a resposta naturalmente é derrubá-la, já que não se pode atirá-la no mato, como seria do feitio do nativo urbano com ares de cosmopolit...

Coisa de pobre

  Inspirado no livro da moda, e dizer que um livro está na moda já pressupõe viés de classe num país de não leitores, pensei no que seriam as coisas de pobre. Seu ethos e marcas, suas especificidades e ritualísticas, suas vestimentas e modos de comer, habitar e viajar. Enfim, o conjunto mais ou menos heterogêneo de características (gostos, preferências, escolhas) que ajudam a montar a imagem mental que se tem do pobre no Brasil, no Nordeste, no Ceará. Tal empreitada antropológica iria requerer que o pesquisador deixasse de lado essa verdadeira tara da arte atual (cinema, televisão e mesmo a literatura) por retratar o 1% dos mais endinheirados, atraída sabe-se lá pelo quê – talvez pelas zonas cinzentas de moralidade de uma casta de privilegiados, como se o pobre fosse, além de desprovido materialmente, um quadro sem forma e fundo que não se prestasse a dramaticidades à altura das ambições estéticas contemporâneas. Como se fosse pobre também em valores, sentimentos e complexidade sub...

Brasil para colorir

Fiquei pensando nessa febre dos livros de pintar, os Bobbie Goods, brochuras terapêuticas que lideram rankings de vendas em eventos literários, os primeiros depois daquela pesquisa cujos resultados mostraram que o Brasil é majoritariamente um país de não leitores. Ou seja, somos mais como uma sociedade para colorir do que para ler, de preencher do que de entender, de repetir maquinalmente o gesto do que de suspender mecanismos rotinizados. Mais de contornar os problemas do que de deixar de lado esses “good feelings”, de vagarosamente ir ordenando tudo conforme uma paleta selecionada ao gosto de quem manuseia esse número finito de cores do que de aceitar que a realidade é informe e multicor. Enfim, talvez haja nessa mania uma chave qualquer para entender sabe-se lá que problemas atávicos, que retornam sempre pela porta dos fundos e aos quais respondemos com esses expedientes. Afinal, o que significa essa opção pela pintura em desfavor da palavra, do andamento irrefletido da mão no lugar...