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Salto



A amiga saltou, o amigo também. De repente, todos estavam saltando. Todos depois que todos os outros antes deles tinham saltado. Mas isso foi noutra época. Uma época em que se podia saltar em paz, sem ser atrapalhado por ninguém que atravessava a cidade de carro, mas também de bicicleta, para, depositando as coisas num cantinho, perguntar se alguém olhava e pá, pular do alto da ponte direto no mar. A falta de jeito era parte do charme. Afinal, ninguém antes dele ou antes dela tinha saltado da ponte. Ninguém com mestrado e doutorado. Ninguém que sabia ler com fluência textos em três idiomas havia saltado da ponte antes dele. E ele também queria. E saltou. E gostou do salto, que durou menos tempo do que a saudade que tinha quando estava em casa e não podia saltar. Durou tanto tempo que, enquanto saltava, no meio do desenho que o corpo vai fazendo no ar, esse arco meio torto, é verdade, pensou se já não seria tempo de voltar a dizer o que antes tinha medo de dizer. Enquanto caía, nessa trajetória errada de pulo que, no final, acaba dando certo, considerou a possibilidade de ao menos uma vez estar diante dele ou diante dela e oferecer algo além de um sorriso atrás do qual se escondia como um bicho numa touceira no meio do mato. Pensou que podia, sim, mas aí já tinha caído e mergulhado e agora as bolhas e os sons se misturavam ao barulho do zumbido e à ardência nas pernas e braços. Agora ele também tinha saltado. Podia dizer. Eu pulei. E foi bom. Gostei. Saltou tantas vezes naquela tarde que voltou pra casa achando um erro da evolução termos ficado de pé muitos anos atrás e, antes disso, termos deixado a água, que é realmente o melhor lugar do mundo. Na água ninguém sente que precisa saltar para chegar a qualquer lugar. 

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