A amiga
saltou, o amigo também. De repente, todos estavam saltando. Todos depois que
todos os outros antes deles tinham saltado. Mas isso foi noutra época. Uma época
em que se podia saltar em paz, sem ser atrapalhado por ninguém que atravessava
a cidade de carro, mas também de bicicleta, para, depositando as coisas num
cantinho, perguntar se alguém olhava e pá, pular do alto da ponte direto no
mar. A falta de jeito era parte do charme. Afinal, ninguém antes dele ou antes
dela tinha saltado da ponte. Ninguém com mestrado e doutorado. Ninguém que sabia
ler com fluência textos em três idiomas havia saltado da ponte antes dele. E
ele também queria. E saltou. E gostou do salto, que durou menos tempo do que a saudade que tinha quando estava em casa e não podia saltar. Durou tanto tempo
que, enquanto saltava, no meio do desenho que o corpo vai fazendo no ar, esse
arco meio torto, é verdade, pensou se já não seria tempo de voltar a dizer o
que antes tinha medo de dizer. Enquanto caía, nessa trajetória errada de pulo
que, no final, acaba dando certo, considerou a possibilidade de ao menos uma
vez estar diante dele ou diante dela e oferecer algo além de um sorriso atrás
do qual se escondia como um bicho numa touceira no meio do mato. Pensou que
podia, sim, mas aí já tinha caído e mergulhado e agora as bolhas e os sons se
misturavam ao barulho do zumbido e à ardência nas pernas e braços. Agora ele
também tinha saltado. Podia dizer. Eu pulei. E foi bom. Gostei. Saltou tantas
vezes naquela tarde que voltou pra casa achando um erro da evolução termos
ficado de pé muitos anos atrás e, antes disso, termos deixado a água, que é
realmente o melhor lugar do mundo. Na água ninguém sente que precisa saltar
para chegar a qualquer lugar.
Esse foi o ano dos bebês reborn e dos labubus, dos dispositivos de substituição e transferência de afeto, da desafetação e do dar de ombros para o desfile acelerado da vida. Ano do boom da IA e da promessa de um futuro edênico no qual o virtual e o real se equivalem, ano da tiktokzação do sofrimento e da grande diáspora das redes. Ano da fuga das galinhas, dos filmes de terror e do Neymar, ano da prisão e da romantização da prisão dos famosos e do presidente em sua eterna crise de soluço. Ano do vazamento e da sorte de adivinhar os temas sobre os quais milhões sonham em escrever na hora da prova, ano do mecanismo da sorte, da estrutura secreta que produz o futuro. Ano do ostracismo do panetone e da reabilitação do ovo, ano da graça e também da desgraça, ano do recolhimento meditabundo e do desbunde, da ioga e do forró raiz. Ano das desescritas do eu, da arte do baixo ventre, da grafia do corpo sem corpo, enfim, ano de toda sorte de golpe mercadológico para vender mais no país q...
