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O problema do papá



Eu saquei na hora que a cuidadora da creche estava mentindo por causa do papá.

Minha filha ainda não fala papá, pensei, apenas mamá e às vezes também a variável mais fechada, mamã. Papá, nunca.

Por que, então, dizer que ela tinha começado de repente a dizer papá, exatamente quando ninguém além dela estava lá para ouvir?

Duvidei. Mais que duvidei, suspeitei que fosse mentira. Uma dessas mentirinhas inocentes que a gente conta para agradar os outros. Sim, o vestido caiu bem. Nossa, o corte ficou ótimo. Olha, como você aprendeu inglês rápido. E por aí vai. 

Então era isto: a cuidadora queria me agradar me fazendo lembrar que, entre tantos mamás, minha filha havia conseguido articular um papá. Bom, talvez tenha funcionado com outro pai.

Tenho insistido no papá desde que ouvi minha mulher começar a campanha do mamá, uns dois meses atrás. A diferença é que a campanha dela funcionou e a minha, não. A goleada foi tão acachapante que, para me agradar, ela mesma entrou em campo para tentar alavancar o papá. Sem resultado. Demos o caso por momentaneamnete encerrado.

Até certa idade, filhos não têm pai, apenas mãe - os país são extensão do corpo da mãe, sem qualquer idade. Esse homem que disputa com a mulher um posto de destque na criação dos filhos. Esse que chora com o primeiro dentinho, todo sentimentalóide. Esse que segura a mão da esposa durante o parto e até coloca um CD pra tocar com as músicas escolhidas, recebendo elogios dos médicos, que conversam tão animadamente quanto se estivessem numa roda de samba. Esse homem que, embora não tenha escutado quando o bebê acordou chorando nas trinta ou quarenta primeiras noites, nem acordaria pelas próximas trinta ou quarenta também, resolve compensar tudo ajudando a escolher o melhor vestido para a festa de aniversário da prima. 

Não tenho vergonha de dizer: tento mesmo sublimar as lacunas de pai escrevendo um punhado de frases que, um dia, quem sabe, minha filha terá interesse em ler. E, quando e se isso realmente acontecer, talvez entenda que, mesmo sendo um pai cheio de deficiências, aquele era um pai legal. Quem sabe até se arrependa de não ter murmurejado um número de papás igual ou próximo ao de mamás. 

Minha intenção não é chantegear minha filha, claro. Não tá a fim de falar, não fala. É preciso saber aceitar a realidade, e a realidade hoje é dura e exclui a palavra papá. Vida que segue.

Mas daí a quererem me enganar, edulcorando a história toda? Não vou aceitar. Lembro da cuidadora da creche. A Norma é uma senhora bem simpática. Gostamos muito dela. Foi ela quem disse pela primeira vez que a Cecilia tem uma risada engraçada. Mamá, disse Norma. E papá também, garantiu. Continuei a gostar da Norma mesmo depois disso. 

Contei a história pruma amiga. Escreva sobre isso, ela respondeu. Acho que foi mais que um pedido – foi um conselho, desses que as pessoas dão a quem tem problemas para dormir ou dificuldades de largar o álcool. Vá ao médico, foi o que ela quis dizer. Obrigado.

Estou aqui, no médico. É noite de sábado. Minha filha e minha esposa dormem. Escuto latidos na rua, estampidos de uma festa de aniversário. Balões estouram, e imagino crianças correndo em volta de uma mesa ou fazendo guerra de glacê e, sentados em cadeiras de plástico, adultos bebericando cerveja - num canto, uma vovó nina o neto, suado de tanto brincar. Aqui e ali, apuro os ouvidos na tentativa de identificar um choro vindo do quarto ao lado. Silêncio. 

Cecilia não diz papá e talvez até me confunda com uma das professoras da creche que resolveu deixar a barba crescer. Não tem problema, desde que tudo continue assim: ela diz mamá, mas só consegue dormir nos meus braços.

Fico feliz.  

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