Olha, essa obrigação de concatenar
pensamentos expressos em frases que, em conjunto, tenham um significado além do
mero registro em dicionário, que digam mais do que um ajuntamento qualquer de
palavras, a obrigação de afirmar com todas as letras isto é isto, aquilo
é aquilo, de prolongar o que se resolve num parágrafo, achar que escrever mais
seria uma forma de atenuar, essa compulsão em fazer sentido e com isso
convencer os outros, a pretensão de se abrir em liquefeita razão, clarear as
ideias como se clareiam os dentes, o desastre que é mecanizar a volta do
ponteiro, a desgraça que também é relativizar tudo, a merda que todo mundo faz
no momento exato em que aceita que da calçada pra fora a vida é esse jogo mesmo e
que cabe a cada um jogar da melhor forma possível.
Esse foi o ano dos bebês reborn e dos labubus, dos dispositivos de substituição e transferência de afeto, da desafetação e do dar de ombros para o desfile acelerado da vida. Ano do boom da IA e da promessa de um futuro edênico no qual o virtual e o real se equivalem, ano da tiktokzação do sofrimento e da grande diáspora das redes. Ano da fuga das galinhas, dos filmes de terror e do Neymar, ano da prisão e da romantização da prisão dos famosos e do presidente em sua eterna crise de soluço. Ano do vazamento e da sorte de adivinhar os temas sobre os quais milhões sonham em escrever na hora da prova, ano do mecanismo da sorte, da estrutura secreta que produz o futuro. Ano do ostracismo do panetone e da reabilitação do ovo, ano da graça e também da desgraça, ano do recolhimento meditabundo e do desbunde, da ioga e do forró raiz. Ano das desescritas do eu, da arte do baixo ventre, da grafia do corpo sem corpo, enfim, ano de toda sorte de golpe mercadológico para vender mais no país q...