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Agosto

Porque já é agosto e 2014, um ano incomum, como comumente são os anos pares, dei de querer saber: quando é que a vida começa a mudar? Falo dessa vida que, no dia a dia, se tornou uma que não conhecíamos e nós, outros que não sabíamos. Não é segredo que todo mundo tem um plano escondido e que esse plano envolve muitas variáveis e personagens. Como esse plano desaparece para que a gente se torne quem é? Ou, caso não desapareça, em que gaveta esse plano se meteu? 

Em nome do amadorismo, dei para perguntar como tudo acaba se tornando o que é. Quero entender como X e Y se combinam para formar Z. É o meu brinquedo de adulto. Uma ciência do amadorismo, do desastre e do riso. 

Há vinte e cinco anos, talvez num mês de agosto, eu ainda era criança e brincava de capturar o tempo. Nada de arapucas ou gaiolas. Apanha-se o tempo no chão da sala, o rosto encostado no frio da cerâmica; ou na parede, rabiscando as pinturas rupestres da meninice: árvores, cavalos, a família, nuvens de chuva e pavões, beijos e camelos. Enquanto a mãe produzia na casa esse som que as mães fazem quando pensam os pensamentos de mães, a criança perde-se em mil e uma tentativas de fazer do tempo o brinquedo mais querido. Até que consegue, finalmente. Depois, já adultecidos, é que a brincadeira se divorcia do prazer.  

Menino, também num mês de agosto, inventamos de dormir mais cedo, antes das nove horas, de modo a antecipar a chegada do novo brinquedo. Não demorava, porém, e o brinquedo novo se incorporava ao mundo dos brinquedos velhos. Essa passagem - da novidade ao familiar, da paixão ao cotidiano - era impalpável, escorregadia e inevitável. Perguntava pra mãe se o velho podia ser novo e o novo, velho. A mãe dava de ombros, ciosa do prato ensaboado. 

A gente é tão besta, repito pra mim mesmo, sem entender por que incluo outras pessoas quando, na verdade, estou me referindo apenas a mim. Adolescente, tentava apanhar a mudança pela mão, medi-la e guardá-la, sabê-la minha. Retê-la pra sempre. Também ali fracassava. Desconhecia que a vida corre num trilho e a gente, noutro, e só nuns poucos momentos é que atravessamos e acenamos, surpresos com esse encontro inesperado.  

É agosto, diz o calendário. O mês seguinte, setembro, de ventanias e novidades, anuncia o último quadrimestre de 2014. Se estivesse na escola, teria agora pouco tempo para recuperar as notas. Se estivesse na escola, precisaria aprender tudo que deixei pra trás num prazo ainda mais curto, o que me levaria a pensar num bom plano. Se estivesse na escola, diria a mim mesmo que não preciso seguir plano nenhum. Mas eu não estou na escola. A escola punia a distração e o extravio, os dois brinquedos prediletos do adulto. É melhor agora. 

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