Pular para o conteúdo principal

Perspectiva


Cena

Outra solução possível é a descrição extrema de tudo que vemos: portas, janelas, cortinas, cheiros, texturas, sentimentos, pessoas, vento, qualidade da imagem da televisão durante uma chuva mais forte, cansaço, rugas, pregas, dores lombares, suco de laranja e luzes noturnas, suor e gás do refrigerante, a curva das costas e o odor do cabelo embaraçado.

Outra alternativa é simplesmente não se importar e ir em frente, mas logo chegamos adiante e o trecho que parecia distante está agora bem debaixo dos nossos pés e o que devemos fazer já não parece um retrato do futuro que não chegou. O que está adiante é mais como uma carta enfiada sob a porta ou uma dessas pessoas que julgamos conhecer, mas que no fundo é alguém com quem trocamos duas ou três palavras em circunstâncias improváveis e que daquele momento em diante ficou retida pra sempre num vão cioso da memória.

Uma terceira e última possibilidade é, esgotadas todas as tentativas, das mais razoáveis às menos, voltar-se pra si mesmo à procura de qualquer coisa que se pareça com uma resposta, satisfatória ou não, e em seguida descrever tudo que está ao redor.

E continuar descrevendo até que não faça o menor sentido aplicar as camadas de cores aos objetos e pessoas e coisas vagando sem nexo pela cidade.

E seguir por aí afora descrevendo e descrevendo enquanto dentro de casa reina o silêncio. Talvez aí, sim, a gente consiga algum sossego, mas é claro que não aposto nisso. 

Postagens mais visitadas deste blog

“Romerobritização” de Fortaleza

  Foi apenas quando li o anúncio prometendo uma “Aldeota no Eusébio” que me dei conta dessa “romerobritização” de Fortaleza, ou seja, a paulatina substituição de seus signos mais antigos (nem sempre bonitos, mas históricos) por uma estética não apenas nova, mas cafona e estridente, facilmente replicada em qualquer lugar. Uma metrópole feita por IA, com padrões copiados aqui e ali, espigões e requalificações, prédios espichados e um centro urbano ao Deus dará. Enfim, um aterro visual que impõe à cidade o apagamento de seu tecido e a rasura de seus marcos, mas sobre isso tenho falado tanto que me dá certa gastura. Um exemplo é a ponte velha, agora convertida em problema para o qual é preciso encontrar uma solução rapidamente, antes que algum enxerido sugira conservar o espaço, dando-lhe melhor uso, ou, o que é pior, ouvir as comunidades do entorno. E a resposta naturalmente é derrubá-la, já que não se pode atirá-la no mato, como seria do feitio do nativo urbano com ares de cosmopolit...

Coisa de pobre

  Inspirado no livro da moda, e dizer que um livro está na moda já pressupõe viés de classe num país de não leitores, pensei no que seriam as coisas de pobre. Seu ethos e marcas, suas especificidades e ritualísticas, suas vestimentas e modos de comer, habitar e viajar. Enfim, o conjunto mais ou menos heterogêneo de características (gostos, preferências, escolhas) que ajudam a montar a imagem mental que se tem do pobre no Brasil, no Nordeste, no Ceará. Tal empreitada antropológica iria requerer que o pesquisador deixasse de lado essa verdadeira tara da arte atual (cinema, televisão e mesmo a literatura) por retratar o 1% dos mais endinheirados, atraída sabe-se lá pelo quê – talvez pelas zonas cinzentas de moralidade de uma casta de privilegiados, como se o pobre fosse, além de desprovido materialmente, um quadro sem forma e fundo que não se prestasse a dramaticidades à altura das ambições estéticas contemporâneas. Como se fosse pobre também em valores, sentimentos e complexidade sub...

Terminando o ano

  Esse foi o ano dos bebês reborn e dos labubus, dos dispositivos de substituição e transferência de afeto, da desafetação e do dar de ombros para o desfile acelerado da vida. Ano do boom da IA e da promessa de um futuro edênico no qual o virtual e o real se equivalem, ano da tiktokzação do sofrimento e da grande diáspora das redes. Ano da fuga das galinhas, dos filmes de terror e do Neymar, ano da prisão e da romantização da prisão dos famosos e do presidente em sua eterna crise de soluço. Ano do vazamento e da sorte de adivinhar os temas sobre os quais milhões sonham em escrever na hora da prova, ano do mecanismo da sorte, da estrutura secreta que produz o futuro. Ano do ostracismo do panetone e da reabilitação do ovo, ano da graça e também da desgraça, ano do recolhimento meditabundo e do desbunde, da ioga e do forró raiz. Ano das desescritas do eu, da arte do baixo ventre, da grafia do corpo sem corpo, enfim, ano de toda sorte de golpe mercadológico para vender mais no país q...