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Javalis não transpiram



Javalis não transpiram, foi o que ouvi quando a jornalista encarou o javali como se precisasse dizer algo realmente importante. Então soltou essa: javalis não transpiram. 

Estava comendo, melhor, esperando comer. Pedira o de sempre, filé à parmegiana, o prato mais rápido do restaurante. A jornalista, melhor, a Glória Maria, vestida com roupas de repórter aventureiro em visita a algum país exótico, celebrava a diversidade da fauna desse país exótico etc. Foi aí que disse: javalis não transpiram. 

Tive pena ao imaginar cada um dos poros daquele animal tão bonito a sua maneira. Cada orifício obstruído pelo arbítrio da natureza. Suando pra dentro. A temperatura do corpo à mercê de um mecanismo de compreensão ainda mais estranha que o nosso.   

Javalis não transpiram, repetiu Glória Maria. Era como se dissesse: vejam como cada segundo de vida pode ser uma doce confusão entre o que queremos e o que podemos ter. E tudo isso só fez aumentar a solidariedade interespécie. 

Transpirar é tão bom.

A comida não tinha chegado. O garçom, o mais lento do restaurante, alisava a barra da camisa branca encardida. Um garçom velho, triste e lento. Como um javali. 

Mas o animal não transpirar quer dizer necessariamente que não produza suor? Quis perguntar ao garçom, que não desgrudava os olhos da estampa quadriculada da toalha de mesa. Parecia hipnotizado. E de fato estava. Acenei. Ele sequer piscou.  

Está na cara que javalis são uma espécie triste. Não fazem sexo, por exemplo, uma atividade suarenta. Não correm, outro exemplo, um exercício fundamental à boa saúde. Não entram em ônibus cheio, uma rotina obrigatória nas metrópoles.

Disso tudo, porém, não fazer sexo soava como punição divina. Um adendo descabido à condenação natural de ser o que já eram: javalis. 

Revi minha teoria e concluí: era furada. Javalis fazem sexo, sim. Multiplicam-se como qualquer bicho. Um sexo enxuto, limpo, rápido. Diferente desse outro, suado, deslizante, demorado, subproduto natural de dois corpos que, de tanto se atritarem, ficam como quase um, permanecendo dois. Isso é o suor. E disso, pelo visto, os javalis não saberão jamais.

Uma pena. Esperava a comida. O garçom coçou a orelha. Deu pra ver os tufos de pelo saindo de lá como raízes de uma árvore rasgando a calçada. 

E se o javali, mesmo sem transpirar, pudesse imaginar as bênçãos do suor? Compensar nossas lacunas com a força da imaginação é uma habilidade que por séculos tem evitado a autodestruição da espécie humana. 

Se o javali pudesse estetizar essa falta, convertendo-a em arte. Tudo que perdia por não partilhar dessa ginástica glandular, eternamente condenado à fricção sem atenuantes. De repente ciente dessa pele fadada ao mais rugoso contato. O sexo como pedra contra pedra. 

Esse javali, eu quis atirar ao garçom, seria mais ou menos feliz?

O garçom se aproximou, sorriu e disse: olha aí quem chegou. Era a comida, finalmente. 

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