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Acompanhe em tempo real


Acima, grupo de alunos aprende o duro processo de acompanhar a vida em tempo real 

As ações agora têm um predicado que busca dotá-las de um grau ainda maior de autenticidade. Que predicado é esse? O que possibilita que narremos em tempo real, ou seja, o tempo que se desenrola à medida que o presenciamos. Veja em tempo real, acompanhe em tempo real, informe-se em tempo real, divirta-se em tempo real – esses enunciados têm em comum o fato de convocarem a um modelo específico de participação.  

O que há, porém, nessa sobreposição, porque se trata realmente de uma, que provoca tanto fastio? Ou não é fastio essa sensação que se segue a toda exposição excessiva e frenesi digital?O que temos feito de errado?

A impressão é que eliminamos etapas de um processo cujo resultado final era a criação de noções e conceitos a partir de experiências que costumavam exigir maturação. 

As opiniões estão aí, agora como subproduto do fazer/pensar simultâneos e não de um processo menos volátil.  

Uma das discussões mais freqüentes hoje diz respeito ao caráter precário do distanciamento como filtro do real em contraposição a uma postura mais fiel aos eventos narrados, comumente chamada de participante.

"Participante" é, não por acaso, a palavra da moda. 

Elege-se a proximidade como parâmetro principal e esquece-se, porém, que esse é um modo diferente de atribuir significados e de interpretar a realidade -  não o único. Na prática, todo ponto de vista é resultado do alheamento e da proximidade. Ao entender a participação como proximidade extrema, elimina-se uma fase importante de elaboração do pensamento: a distância.  

Ocorre que poucas atividades se dão à distância, estando condicionadas ao simultâneo e à extrema presentificação. Tudo passa por um filtro, que é o da narração visual do banal à medida que o banal se desenrola. O paradoxo é que narramos o vulgar na tentativa quase desesperada de verter o vivido não em mero passado, mas em passado substancial.

A alta capacidade de registrar e capturar cria a necessidade de mais matéria bruta. A confecção dessa matéria bruta requer tempo. E o tempo cada vez mais se fragiliza.  

É uma equação de difícil resolução essa com que temos de lidar. Abundância de ferramentas, necessidade de material humano, imperativo do tempo como catalisador ou fermentador.  

A ideia de um tempo segmentado em dimensões (passado, presente e futuro) é falimentar só até certo ponto. Continuamos a adotar essa divisão como representativa de momentos diferentes e grosseiramente lineares. 

O que vem ocorrendo, ao contrário do que muitas vezes parece, é a hipervalorização do passado, da memória, do sedimento, do acumulado. 

Admiramos tudo que se formou a custo de tempo, usamos roupas com ares de velharia, recuperamos gostos anacrônicos, soamos deslocados e, pior, soar deslocado, fora do tempo, ou em conexão superficial com outra temporalidade, é um imperativo da moda, um atributo supervalorizado, como uma peça de vestuário.  

O que chama a atenção, porém, é o lugar de destaque que o passado ocupa. É sintomático de uma sociedade que não tem mais tanta paciência pra cultivar esse jardinzinho de horas perdidas.

Ao materializar o passado fora do tempo, fora do campo da experiência, fora da engrenagem do sentido, o esforço de captura do real se volta para o reparo de uma lacuna.

Vivemos, assim, não o passado autêntico, de resto inacessível, mas modos de passado.  

É como se viver prescindisse do viver. Ou, antes, viver estivesse a serviço do registro e da captura e não da experiência, que se torna secundária se imaginarmos que os mecanismos de validação do sujeito passam quase que exclusivamente pelos ritos de presentificação massiva na internet. 

O que vivencio deve corroborar o que sou virtualmente e não o contrário. Viver e interagir são extensão de outras relações, estas essencialmente não físicas, fundadas num conjunto de características e temas afins ao meu leque de gostos etc. 

Minhas ações reafirmam sentidos atribuídos a mim mesmo nos perfis com os quais interajo com outros grupos sociais, com meu próprio grupo ou comigo mesmo. Esses atributos são sugeridos ora por mim, ora depreendidos do conteúdo que consumo/compartilho.  

Cada experiência é analisada sob o viés da economia da validação do sujeito. É a reiteração de atributos que está em jogo. 

Viver, então, transforma-se nesse campo de consolidação de uma autoimagem gerenciada com mais ou menos eficiência nas redes que cooperam para o trabalho de construção de um perfil social, artístico ou político.

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