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À falta de um nome adequado para o que vem ocorrendo, cada um resolve chamar como quer. Revolução ou marcha reformista, primavera ou inverno, baderna ou mudança, intifada hormonal ou radicalização democrática.

A guerra em curso diz respeito menos às mudanças no sistema de transporte do que à forma de recepção da multiplicidade de mensagens endereçadas a uma audiência igualmente difusa. Todo mundo entende como quer a frase encontrada na garrafa.

Quatro estações não são suficientes para classificar os atos das ruas. O espectro político não se reduz a direita ou esquerda, nem se esgota nas palavras de ordem. Os jovens irmanam-se enquanto duram as passeatas.

A rejeição é a tônica dos protestos. Nas redes sociais, nas ruas, nos bares, há esse clima de clube do Bolinha. Se tiver bilhete para as manifestações e comungar valores semelhantes, ambos critérios de corte, dentro; do contrário, fora.

Há os revolucionários e reformistas; e há os “reaças”, como gostam de falar, com um nojinho que não disfarça o orgulho que sentem em fazer parte da outra turma. A prodigalidade com que distribuem o rótulo de “reaça” não chama a atenção de ninguém. As nuances ficam ainda mais borradas. Estabelecem-se polos de compreensão do que acontece. Em tese, há muitos modos de interpretar as manifestações que sacudiram o país nas últimas semanas. Na prática, poucas gozam de alguma validade.

Leio uma dezena de artigos que corroboram o meu ponto de vista. Tenho opinião formada. Doravante, o papel que irei desempenhar não será o de debatedor nem de crítico, mas o de militante engajado nessa causa.

Estou certo de que o caminho é esse. Não há razão para questionar as placas.

As placas estão erradas. Merecemos outros sinais, um novo alfabeto, novas regras, uma nova cartilha, novos políticos, novos partidos, uma língua diferente nasce agora no meio da rua.

Como nasce a flor do poema de Drummond, lembrou Julián Fuks, enxergando semelhança entre a forma que rompe o asfalto e os gritos amplificados nos protestos que assaltaram as ruas. 

É tudo um pouco confuso, não há tantas certezas, frases de efeito sobrevivem apenas até o dia seguinte, quando os jovens mostram que algumas verdades duram somente o ciclo de 24 horas - ou nem tanto.

Algumas velharias morais, parte entulho geracional, parte herança que transcende as classes sociais, vão passando de mão em mão, agora repaginadas e vendidas como coisa nova, bonita e cara: o gigante acordou e descobriu que andava sobre pernas de pau.  

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