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Aquele ano tão sujo

Não lembro quando foi a última festa de aniversário. Talvez vinte anos atrás, talvez mais que isso. Vivíamos essa época em que as mães, sumo-pontífices do lar, invocavam o L'État c'est moi para cada pequeno ato despótico na regência do cotidiano da prole. E não adiantava espalhar panfletos trombeteando que o absolutismo era uma ferramenta pedagogicamente démodé ou que essa Bastilha doméstica tinha os dias contados. A instituição materna, responsável por prender, julgar e açoitar, não se importava.

Lá em casa não era diferente. A mãe ordenava: filho, hoje é dia de celebrar a Páscoa usando orelhas de coelho. Eu usava as orelhas e ia pra escola desfilar a nova aparência. A mãe dizia: circule os números primos. Eu circulava. Responda com suas próprias palavras: eu respondia. Sublinhe os adjetivos. Mãe, o que é sublinhar? É traçar uma reta embaixo da coisa que você quer destacar das outras. Por que tenho que destacar uma coisa da outra? Destacar é separar, e separando a gente entende melhor. Você precisa entender as coisas melhor, e nisso a mãe punha toda a ênfase do mundo.

Eu achava que, aos 33 anos, teria sublinhado coisas suficientes na vida e, portanto, entenderia tudo melhor: as pessoas, o tempo, a tristeza, as faltas, a saudade, a felicidade, a morte, a despedida, a dor, a insatisfação, a frustração e as asperezas involuntárias. Em suma, os próprios limites e potencialidades, duas zonas aflitivas quando temos 14 anos e nossos pais ainda se confundem com frequência quanto às fronteiras de uma e de outra, nos fazendo cumprir rotinas na piscina quando queremos jogar videogame ou vice-versa.

Quando chegassem os 33, eu acreditava, sob cada um desses conceitos haveria uma reta luminosa indicando: por aqui passou a compreensão. O dia chegou. Subi o morro. Como um bandeirinha esquizofrênico, os 33 anos acenam para o futuro, que continua borrado. Não tanto quanto parecia na infância, mas ainda longe da clareza que imaginei que fosse encontrar.

Há uma frágil membrana de simbolismo em torno desse marco etário, que autoriza, como nenhum outro, a revisão da própria história. A contrapelo, com rigor cambiante, repassamos as eras, avaliando conquistas e derrotas, somando pontinhos num caderno de pauta, riscando nomes, adicionando nomes, nos orgulhando de algumas cenas e lamentando outras, fraudando narrativas e recuperando o sentido de frases inteiras ouvidas quando não tínhamos maturidade bastante para entender.

Sem consultar a Wikipédia, normalmente minha fonte para traçar paralelos e estabelecer vínculos entre as coisas, lembro apenas da óbvia relação com a idade de Cristo. É a única, talvez.   

Ter 33 anos é isso. É pensar nos próximos 33 e depois nos 20 anos seguintes. É adiar continuamente o instante de clarividência, que nunca vem.

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