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Supernormal sentir o que sentimos




Nossa primeira super lua (embora prefira falar supermoon, que me faz pensar no mugido prolongado de uma vaca triste, vou usar aqui super lua) foi há dois anos. Me engano fácil, foi no finalzinho do ano passado, portanto dois mil e doze. E mesmo assim parece que já tem tanto tempo, quase noutra vida, como reza o clichê.  

Estávamos sentados no que chamamos A Ponte Velha, uma pata de cimento pousada tranquila na borda do mar, braço quebradiço, ruína arquitetônica, superfície perfurocortante que vai aos pouquinhos se desfazendo: primeiro uma lasquinha, em seguida outra, até que os pedaços faltantes sejam tantos que haja mais da ponte dentro d'água que fora. 

A isso damos o nome pouco simpático de morte, que julgo valer também pras coisas inanimadas, o que forçosamente me leva a admitir a existência desta anomalia conceitual, a "coisa animada". 

A alguns metros dali, na Ponte Metálica, lá onde os meninos ainda tocam Legião Urbana e as meninas ainda bebem vinho barato, todo mundo se espremia à procura do melhor ângulo para captar o fenômeno. Muitos se perguntavam se seria necessário acionar o flash ou se bastaria a luz natural. Não sei como resolveram esses problemas.

Verdade é que tinha uma porção de gente desejando que dentro de poucos minutos qualquer coisa indefinida, mas enorme, bonita, plenamente domesticável e fotografável, acontecesse.  

E de fato foi isso o que aconteceu. A super lua se deixou reter.

Na Ponte Velha, não balançávamos os pés nem fotografávamos, tampouco contávamos piadas, descrentes de que houvesse uma lua que nos surpreenderia. Não esperávamos nada, pra ser honesto, exceto a confirmação de que alguns fenômenos naturais (os eventos da terra, ações previstas pela linguagem científica) são como os nossos fenômenos particulares, cuja descrição é quase sempre mais complexa, porém: ambos esbarram em algum nível de previsibilidade.

E com a lua, mesmo super, não poderia se dar nada de diferente. Era o que a gente pensava enquanto um grupo passava um baseado de cabeça a cabeça e meia dúzia de pescadores de ocasião lançavam iscas que retornavam sem nada abraçado ao metal recurvo do anzol. 

Saindo do mar, a lua, então, nos pegou gigante. 

Conforme haviam antecipado os sites de notícia, era uma circunferência 30% mais brilhante e 14% maior que o normal, tão grande que parecia manipulada por mãos de programadores adolescentes escondidos atrás de algum biombo que simulava o céu de brigadeiro, como em O show de Truman

E lá estávamos nós, amparados na certeza de que existia o fantástico. Como era bom esse sentimento.

De repente alguém disse, puxa, a gente podia ter trazido a máquina, e foi só. Éramos um tantinho irresponsáveis por ter saído de casa sem uma máquina que pudesse registrar a singularidade, o evento, a magnitude. 

Ficamos ali mais alguns minutos pensando no que havíamos presenciado, certos de que a super lua não era uma mentirinha contada por uma professora do colegial a fim de despertar nas crianças o gosto pela dimensão imponderável da vida, mas uma realidade tão palpável quanto o frio da cerâmica em contato com os pés recém descalços. 

Depois fomos caminhar e comer pipoca. Apanhamos um táxi que nos deixou na porta de casa. No caminho, perguntamos ao taxista se ele tinha visto a beleza da lua no céu.

A lua? Ele riu e disse que o carro não tinha capota, o que era uma pena. Afinal, não é todo dia que o único satélite natural gravitacionalmente preso a nosso planeta está 30% maior e 14% mais brilhante, ou seria o contrário?

O que importa é que a supermoon tem esse nome não porque seja capaz de levantar cem vezes o seu peso nem de fazer o tempo regredir, atributos só permitidos ao Super Homem. 

A lua é super porque, vendo-a no céu, ainda que encoberta por nuvens de chuva gigantescas em formato de "enterprises", dessas que não dão a menor chance a uma nesga sequer de luminosidade, intuímos o seu contorno.

E ele é nítido, sólido, presente; tipo o amor, que não se confunde com nada. 

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