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Precisamos falar sobre a rapariga



Rapariga, eu? Com muito orgulho, respondeu Rita Hayworth a um repórter que pretendia constrangê-la ao perguntar se a atriz costumava sair com muitos homens ao mesmo tempo

Dispensando a introdução e a contextualização (leiam este artigo e este outro aqui), vamos ao que interessa, ou seja, não ao conceito de rapariga, que sobre isso não me sinto suficientemente escolado para teorizar, mas ao fato de que devemos ter a liberdade de pronunciá-lo, nós e os forrozeiros.

A questão de fundo é o tratamento sexista que as músicas de forró prodigalizaram no que diz respeito à figura feminina. “Rapariga”, por exemplo, é uma expressão com que frequentemente os cantores se referem a um segmento das moças que consomem o produto. Não sei se muitas mulheres se identificam com a adjetivação, mas, a crer no que relata o escritor e crítico musical José Telles, de cujo artigo se originou um debate com ranço conservador, quando instadas, um número considerável de raparigas (conotação lusitana) respondeu que sim, nós somos raparigas (conotação cearense).

Em termos genéricos, o que é a rapariga? A palavra costuma designar a mulher que adota hábitos libertinos, tomando para si as rédeas da própria sexualidade, incorrendo em excessos ou não, sem se importar com o julgamento moral que fatalmente recairá sobre ela. É a despudorada, a “dadeira”, a facinha da buceta. O vocábulo é bastante comum nos shows e CDs das bandas do que se convencionou chamar, pejorativamente, de forró eletrônico ou de plástico, em contraposição a um forró autêntico, de raiz. É como se apenas o forró tivesse a obrigação de, estanque no tempo e no espaço, aferrar-se a instrumentos como sanfona, viola e triângulo. Mas isso já é outro assunto.

Vira e mexe, rapariga e seus derivados – raparigueiro, raparigar etc. – embalam os refrões forrozeiros, e isso não se há de negar. Se o gênero musical tem conceitos-chave, eis um deles, que está na base de um estilo de vida fundado no trinômio sexo/bebida/diversão. Mas não se enganem: não é porque escutam músicas cuja mensagem pode ser resumida ao "vamos trepar agora" que as moças, pobres coitadas, se tornam vítimas. A inocência e o consumo passivo existem apenas na teoria, e talvez nem aí. O imperativo do sexo fácil não é uma característica apenas do forró, mas da cultura de modo geral. 

Dito isso, ocorre perguntar: José Telles teria enrubescido e escrito esse manifesto a favor da moral e da família se, em vez de bradar “tem rapariga aí?”, o vocalista da banda de forró tivesse perguntado: “Tem garanhão aí”? Ou: “Tem pegador aí?” Ainda: “Tem raparigueiro aí”? Finalmente: “Tem ‘buceteiro’ aí?”

“Pegador”, caro leitor desavisado, representa o outro lado da moeda. É o camarada que fode não apenas quando quer ou como quer, mas com quem quer. “Raparigueiro” é o homem que se serve sistematicamente de rapariga. Buceteiro é autoexplicativo. Nesse balaio semântico, garanhão/pegador/raparigueiro e rapariga/galinha/dadeira ocupam latitudes semelhantes de hemisférios diferentes. São pares ordenados, equivalendo-se em sentido.

É desnecessário comentar a associação que promove José Telles entre as letras de forró mais imorais e a derrocada dos valores estéticos e políticos que demarcaram o desmoronamento da ex-Ioguslávia. O que quer dizer o crítico? Que estamos à beira do precipício estético? Que o "ferro na boneca" prenuncia o apocalipse do bom gosto? Comprem-me um bode, por favor. 

Se possível, leiam toda a passagem do artigo que trata do assunto. É uma pérola de raciocínio enviesado. Reproduzo parte dela abaixo:

Faço um paralelo com o turbo folk, um subgênero musical que surgiu na antiga Iugoslávia, quando o país estava esfacelando-se. Dilacerado por guerras étnicas, em pleno governo do tresloucado Slobodan Milosevic, surgiu o turbo folk, mistura de pop com música regional sérvia e oriental. As estrelas da turbo folk vestiam-se como se vestem as vocalistas das bandas de “forró”, parafraseando Luiz Gonzaga, as blusas terminavam muito cedo, as saias e shortes começavam muito tarde. Numa entrevista ao jornal inglês The Guardian, o diretor do Centro de Estudos alternativos de Belgrado, Milan Nikolic, afirmou, em 2003, que o regime de Milosevic incentivou uma música que destruiu o bom-gosto e revelou o primitivismo estético. Pior, o glamur, a facilidade estética, pegou em cheio uma juventude que perdeu a crença nos políticos, nos valores morais de uma sociedade dominada pela máfia, que, por sua vez, dominava o governo.

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