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Tempos alienígenas

Na imagem acima, a heroína procura desesperadamente uma saída do mundo infestado por alienígenas hostis. Para tanto, mune-se de armamento pesado, como lança-chamas e granadas de mão.


Os tempos também são de:

Desejar fazer, embora não se saiba ao certo o quê.

Tempos de projetos, formulações, cartilhas, esboços, parcerias, eleições, mudanças, remoção de fantasmas etc.

Tempos do marketing mudancista, principalmente.

Eu mesmo tenho alinhavado uns tantos projetos mais ou menos ambiciosos. Estão anotados no caderno.

São eles: uma revista de humor. Trabalho seriamente nessa ideia enquanto esboço: um livro.

Uma novela que explora vagamente o pegajoso desejo que quase todo mundo cultiva num canto qualquer da alma de ir embora da cidade e que também alimento, mas com sinal invertido: o desejo de ficar.

De ir ficando, na verdade, um ficar sem heroísmo ou acomodação.

Um ficar curioso.

São arquiteturas incipientes e até amadoras, admito, mais desejos que estratagemas de vida.

Nove dedos no campo das vontades, um dedo no das realizações.

Este tempo, que é de projetos enevoados e vontades fluidas, confunde-se perigosamente com um tempo de aridez.

Época durante a qual arriscar no prazeroso método da tentativa e erro, bastante utilizado sempre que uma dificuldade aparentemente desencorajadora se apresenta, torna-se uma aventura pouco recomendada.

Aliás, nada é muito recomendado agora.

Num jogo de videogame, por exemplo, boa parte dos avanços só é possível graças à ferramenta da tentativa e erro. Só depois de haver morrido e retornado à vida uma dezena de vezes, num ir e vir que punha em risco almoço, café e janta, ameaçando a integridade física do jogador, é que se descortina a maneira correta de seguir adiante.

A maneira correta de vencer – é possível usar essa palavra numa simulação canhestra da realidade, não na realidade.

Ficam, então, pra trás: um chefão morto e um obstáculo, antes enigmático, cuja solução consumiu horas e horas.

Em Alien III, do Mega Drive, pulávamos no abismo à procura de plataformas que existiriam fora do plano visível.

Mas não havia plataformas que nos sustentassem na queda. Era uma verdade que só descobríamos após saltar.

A saída quase sempre era outra: uma escada secreta, uma porta encoberta, um mecanismo bem camuflado que acionava uma ponte levadiça, conduzindo a outro patamar ainda inexplorado.

Em algum nível subatômico, os tempos de agora, no qual a vontade de fazer é manifestada timidamente em ocasiões distintas (festas ou encontros casuais no ônibus), e essa ferramenta primitiva que nos ajudava a vencer – o tempo e o erro parecem apartados.

Todavia, continuam atraindo-se, num convite sabe-se lá a quê.

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