Pular para o conteúdo principal

Cientistas à caça do "bóson de Higgs de Antonina do Norte"


Acima, imagem gerada por satélite identifica rastro do que pode ser o bóson de Higgs de Antonina do Norte.

APENAS O MAIS PERTURBADOR dos sentimentos humanos ~ o desespero ~ pode fornecer pistas que expliquem a vinda inesperada de uma comitiva extra oficial de cientistas italianos e suíços ao município de Antonina do Norte, no interior do Ceará. Lá, neste exato momento, estão reunidos integrantes do Cern (Organização Europeia de Pesquisa Nuclear), membros da Academia Cearense de Ciências, frequentadores do Clube Retículo Endoplasmático de Santana do Acaraú e a cúpula da Associação de Prefeitos do Ceará.

O objetivo do conclave é cristalino para a maioria dos presentes: rastrear os passos da “partícula de Deus”, o bóson de Higgs, apelidado por jornal local de “bidongo atômico” e “caroço do Senhor”.

De acordo com a assessoria de imprensa do Cern, há rumores de que um feixe da fantasmagórica partícula teria se evadido do Grande Colisor de Hádrons (LHC) no momento exato em que se punha à prova a desobediência civil desse elemento, cuja recusa em mostrar-se de corpo e alma à comunidade científica já vem sendo interpretada como mero sinal de capricho. “Depois do neutrino, é certamente o ente subatômico mais vaidoso de que se tem notícia”, advertiu Andrés Paladura, estagiário interino do Laboratório de Estudos de Física da Universidade Estadual do Ceará.

Para Andrés, causa estranheza que o bóson de Higgs, substância prevista apenas em teoria e cuja função na firma de Deus é conferir massa às demais partículas, tenha escolhido a região Nordeste. “Visto por esse lado, soa até preconceituoso supor que, só porque ele distribui massa, engordando prótons e elétrons, viria para a nossa região. Na dúvida, é melhor acionar a OAB-CE e lavrar uma queixa-crime por afronta à nossa nordestinidade”, sugeriu.

Segundo notas esparsas divulgadas pela imprensa internacional no começo da tarde de hoje, após vazamento de parte da energia expelida pelo LHC, perturbações no campo magnético de algumas cidades do Nordeste foram imediatamente detectadas. “O que percebemos pode ser apenas resultado da fricção rotineira das placas sertanejas. Temos razões para acreditar que não passa disso”, afirmou o físico teórico Mathew Damião, recepcionista do Cern. “Todavia, populares afirmam haver testemunhado fatos curiosos na caatinga. Veiculadas em rádios locais, as descrições das anomalias batem com o comportamento esquizóide do bóson de Higgs.”

Reunido a portas fechadas no prédio da Assembleia de Deus de Antonina do Norte, o Priorado do Sertão, conforme mangofa dos nativos, ainda não se manifestou sobre o que poderia ter provocado essa radical desterritorialização da “partícula de Deus”.

“Ninguém sabe ao certo. Nem há suspeitas. É, de longe, o evento mais estranho dos últimos 150 anos no mundo da Física”, garantiu um professor secundarista que preferiu não revelar o nome.

Sem data para deixarem a cidade, os membros do Cern guardam silêncio grave quanto à possível relação entre o sumiço de caprinos, fenômenos de possessão de crianças e os vestígios do bóson espectral. Procurada, a assessoria do instituto saiu-se com uma blague oitentista e pouco inteligente: “Isso não passa de crendice do senso comum”, respondeu, em nota.

Por enquanto, sertanejos têm evitado entrar em mata fechada e buscar água sozinhos no poço. “Estamos todos arreliados”, admitiu Flamarion Bezerra, 57 anos, dono de um orquidário e tocador de sanfona.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

“Romerobritização” de Fortaleza

  Foi apenas quando li o anúncio prometendo uma “Aldeota no Eusébio” que me dei conta dessa “romerobritização” de Fortaleza, ou seja, a paulatina substituição de seus signos mais antigos (nem sempre bonitos, mas históricos) por uma estética não apenas nova, mas cafona e estridente, facilmente replicada em qualquer lugar. Uma metrópole feita por IA, com padrões copiados aqui e ali, espigões e requalificações, prédios espichados e um centro urbano ao Deus dará. Enfim, um aterro visual que impõe à cidade o apagamento de seu tecido e a rasura de seus marcos, mas sobre isso tenho falado tanto que me dá certa gastura. Um exemplo é a ponte velha, agora convertida em problema para o qual é preciso encontrar uma solução rapidamente, antes que algum enxerido sugira conservar o espaço, dando-lhe melhor uso, ou, o que é pior, ouvir as comunidades do entorno. E a resposta naturalmente é derrubá-la, já que não se pode atirá-la no mato, como seria do feitio do nativo urbano com ares de cosmopolit...

Coisa de pobre

  Inspirado no livro da moda, e dizer que um livro está na moda já pressupõe viés de classe num país de não leitores, pensei no que seriam as coisas de pobre. Seu ethos e marcas, suas especificidades e ritualísticas, suas vestimentas e modos de comer, habitar e viajar. Enfim, o conjunto mais ou menos heterogêneo de características (gostos, preferências, escolhas) que ajudam a montar a imagem mental que se tem do pobre no Brasil, no Nordeste, no Ceará. Tal empreitada antropológica iria requerer que o pesquisador deixasse de lado essa verdadeira tara da arte atual (cinema, televisão e mesmo a literatura) por retratar o 1% dos mais endinheirados, atraída sabe-se lá pelo quê – talvez pelas zonas cinzentas de moralidade de uma casta de privilegiados, como se o pobre fosse, além de desprovido materialmente, um quadro sem forma e fundo que não se prestasse a dramaticidades à altura das ambições estéticas contemporâneas. Como se fosse pobre também em valores, sentimentos e complexidade sub...

Brasil para colorir

Fiquei pensando nessa febre dos livros de pintar, os Bobbie Goods, brochuras terapêuticas que lideram rankings de vendas em eventos literários, os primeiros depois daquela pesquisa cujos resultados mostraram que o Brasil é majoritariamente um país de não leitores. Ou seja, somos mais como uma sociedade para colorir do que para ler, de preencher do que de entender, de repetir maquinalmente o gesto do que de suspender mecanismos rotinizados. Mais de contornar os problemas do que de deixar de lado esses “good feelings”, de vagarosamente ir ordenando tudo conforme uma paleta selecionada ao gosto de quem manuseia esse número finito de cores do que de aceitar que a realidade é informe e multicor. Enfim, talvez haja nessa mania uma chave qualquer para entender sabe-se lá que problemas atávicos, que retornam sempre pela porta dos fundos e aos quais respondemos com esses expedientes. Afinal, o que significa essa opção pela pintura em desfavor da palavra, do andamento irrefletido da mão no lugar...