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Paradigma Beltrão-Sabatella

I. Café da manhã

ERA NATURAL que se apaixonasse por Andrea Beltrão, mas não o contrário. Tanto que, a certa altura, embora ainda fosse caído por ela, e entendo por caído uma total devoção de afeto geminada com indisfarçável vontade de saber-lhe fatos da vida, repito: embora ainda fosse lato sensu caído, Andrea não era por ele, no que, presumo, não haja lá grandes surpresas.

Ocorre que assim permaneceram por muito tempo. Na verdade, estão nesse pé até hoje, quando, mesmo alimentando sentimento igualmente denso, diria mais que denso, o sentimento é irreprimível e cheio de uma pureza incomum em dias de relacionamentos cujos marcos regulatórios são brevidade e superficialidade (ver Bauman), ele encontre razões para deixar provisoriamente de lado esse brinquedo, e aqui me refiro ao amor impossível, e dedicar-se a algo que o faça verdadeiramente feliz, e nesse trecho especial me reporto ao amor plenamente possível. Clara oposição de ideias que não dilui a complexidade, só a expõe.


II. Almoço...

NÃO SEI SE me faço inteligível, cara leitora, se utilizo recursos argumentativos diante dos quais a senhorita não estrebuche, atazanada com essa falta de lucidez. Peço uma coisa: não suponham tratar-se de Letícia Sabatella ou Natalie Portman, é evidente que ambas preenchem facilmente o cânone estético de beleza refinada, inatingível, todavia estão orbitando planetas suntuosos, e ele, fraco, desgracioso (sufixo oso é delicioso) e de moral repugnante, além da imperdoável timidez, seria metonímia do que quer que fosse, menos de suntuoso, de maneira que não, desejava-as, entretanto tinha real consciência do estado geral dos processos da vida.

Era bom em ter consciência das coisas impeditivas: ali uma cerca, adiante um muro, em seguida um abismo.

Quer? Isso ficou demonstrado logo às primeiras conversas. Porém vê-se destituído de talento para estabelecer patamares equilibrados. Quando sonha, despenca. E acorda com o susto que se segue imediatamente à queda, mas logo vem a tranquilidade fisiológica, a paz do corpo que se encontra na resposta ligeira: não era queda, era sonho, e sonho com vacilo da queda é apenas sonho, nem melhor, nem pior.


III. Jantar...

NADA É MELHOR ou pior, considera uma de nossas leitoras mais freqüentes, nada há que se compare, nada que exceda ou falte. Tudo é apropriado. Não sei se me acompanham, não pretendo rodear o assunto, incorrendo em tautologias inúteis.

Retomando pra finalizar. Por amor, entendia que – e salpicou um ponto em tudo antes que se tornasse amargo. Ao fim, uma observação: como apêndice de seu discurso, uma peça de dispensável prolixidade, deveria encerrar de vez o mistério em torno do qual vinha girando: Andrea Beltrão sequer existia, era uma dessas fábulas visuais ou miragens que se quer ver ao longe, mas, ao nos aproximarmos, desmancha-se ao toque, ou ainda, desfaz-se por medo do toque.

E todas sacudiram a cabeça, assentindo.

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