Pular para o conteúdo principal

Síndrome do calango febril

NOTA>>> Este ensaio de ensaio, ridículo em sua pretensão acadêmica, foi escrito em abril de 2010, em meio à famosa crise editorial que abalou o mercado cearense. O tsunami foi fartamente comentado em blogs e mesas de bar. À época, diversas teorias surgiram com o fito expresso de explicar a crise que nos havia tragado a todos e que parecia demorar-se uma eternidade. Apenas alguns poucos nomes foram capazes de enxergar maledicência onde havia somente molecagem e somente molecagem onde havia falcatrua da grossa. Ora, que se danem! O texto, elaborado por mim em momento de fraqueza espiritual e dormência física, não goza de fortuna crítica das mais dignas. Ao que consta, foi publicado na REVISTA AEROLÂNDIA, de quem jamais vi um centavo em troca. Boa leitura!


POR QUE ELES NÃO TOCARAM NO ASSUNTO?


PARTO DUM questionamento sobremaneira atroz: o que de concreto escreveram Tobias Barreto, Capistrano de Abreu, Floro Bartolomeu, C.S. Lewis, Artur Bela Clava, Santo Fiorrizheh, Oswald Barroso, Antônio Lima Costa Caneco, Lira Neto e demais partidários da famigerada Escola Audioliterovisual & Outras Mídias do Recife – não DA ESCOLA, mas duma agregação disparatada formada exclusivamente por jovens católicos, homossexuais, comunistas, intelectuais orgânicos, profissionais liberais, realizadores sonoros e cafetinas dedicados a temas controversos.

REPETINDO: o que de fato escreveram essas pessoas sobre a Teoria da Cearensidade como Resultado do CRUSTACISMO, um campo de estudo vastamente ignorado nos dias de hoje (dou conta de apenas dois curtas-metragens, um gibi, um cordel e uma animação visualmente perturbadores e conteudisticamente iracundos sobre esse objeto em especial)?

EU RESPONDO: uma vírgula sequer. Donde se conclui: também eles estavam soberbamente enovelados por um sentimento – a seguir procuraremos definir melhor o conceito – cuja natureza instável supostamente explicaria de tal modo as manifestações do CRUSTACISMO, verificadas ao longo de duas décadas de análises macrobióticas e antropológicas, que, por necessidade científica, assumiremos como elementos balizadores os recentes estudos de Calvin (1585) e também de Haroldo (1574) para fundamentarmos e ampliarmos um debate que, em teoria, simplificadamente, assenta-se de tal maneira:

A teoria propriamente dita é apresentada ao público

TOME-SE UM BALDE cheio de caranguejos arrancados ao litoral cearense. Observe-se esse mesmo balde abarrotado de crustáceos por alguns instantes, três ou cinco minutos, quando muito. Inevitavelmente, chegar-se-á a esta resolução resolutamente límpida: se se enxerga ali um caranguejo empreender, por menor que seja, esforço para transpor os limites irracionais e castradores do balde, que, aqui, representa claramente a punição da sociedade moderna pós-crack de 2008 e o espírito tardo-depressivo evocado por teorias como a de Evanilde (1947), Zélia (1952) e Helder (1971), logo – DIGO, logo – um par ordenado de igual potência, mas com sentido negativo, cheio duma malevolência assustadoramente intensa e duma preguiça familiarmente danosa, interpor-se-á entre o ente positivamente agressivo e, de passagem, irá puxar-lhe as patas num gesto triplamente condenado, moralmente injusto e socialmente abestalhado.

ACASO mantenha-se observando esse balde por ainda cinco minutos, perceber-se-á que o fato-chave se sucede repetidamente numa fração semelhante de tempo, o que, resumidamente, nos faz crer ainda mais fortemente na sólida solução apresentada por Edvar da Copa (1982), quando, a par das novas contribuições dos Estudos Culturais e do Velho Novo Criticismo Pagão, determinou alguns parâmetros para que pudéssemos finalmente apresentar alguns porquês de o caranguejo de potência limitada a sinal negativo impedir que o seu semelhante, mas de sinal positivo, não consiga transpor os limites alucinantes dessa urna repleta de promessas inacabadas, desse balde cuja autenticidade repousa unicamente na alienação das iguarias bastante apreciadas às quintas-feiras em qualquer pé-sujo da cidade.

DITO ISSO, fica claro percebermos por que a Escola Audioliterovisual & Outras Mídias do Recife e seus seguidores passaram ao largo de encontrar uma saída para o enigma que representa a Teoria da Cearensidade como Resultado do CRUSTACISMO – reitero: apenas dois curtas-metragens, um gibi, um cordel e uma animação, barbaramente produzidos e roteirizados, abordam o tema nos tempos de agora. À época, nos idos dos oitocentos, porém, o caráter buliçoso da dinâmica dos corpos ensebados dos caranguejos em fricção com as paredes do balde era sequer levado em conta, o que, para efeito de efetividade de uma teoria, quer dizer muito pouco.

O fator dedo entra em cena


OUTRO PONTO, este crucial, era a polarização ideológica e anatômica “ânus-dedo” singelamente explanada por Carvalho (1972) e Pinto Rego (1982). Considerada por muitos como hipótese meramente escatológica, ela tem um preceito moral fundado sobretudo na cultura medieval. Grosso modo, reza que, à medida que qualquer caranguejo positivo esboce um movimento que vise a catapultá-lo do interior do balde para fora, um outro, de sinal negativo, logra forcejar com uma de suas tenazes, não sem antes tomar impulso, a região do ânus.

CONVENCIONALMENTE, esse gesto, conhecido como dedada, simboliza um ideário de contestação e desconformidade alimentado por uma ideologia que não se adequa às formas de valor preconizadas no modelo capitalista. Diz-se que, a cada dedada desferida por um caranguejo negativo num positivo, a dinâmica dos corpos ensebados em fricção com as paredes ásperas do balde se altera de modo a favorecer os crustáceos menos favorecidos.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

“Romerobritização” de Fortaleza

  Foi apenas quando li o anúncio prometendo uma “Aldeota no Eusébio” que me dei conta dessa “romerobritização” de Fortaleza, ou seja, a paulatina substituição de seus signos mais antigos (nem sempre bonitos, mas históricos) por uma estética não apenas nova, mas cafona e estridente, facilmente replicada em qualquer lugar. Uma metrópole feita por IA, com padrões copiados aqui e ali, espigões e requalificações, prédios espichados e um centro urbano ao Deus dará. Enfim, um aterro visual que impõe à cidade o apagamento de seu tecido e a rasura de seus marcos, mas sobre isso tenho falado tanto que me dá certa gastura. Um exemplo é a ponte velha, agora convertida em problema para o qual é preciso encontrar uma solução rapidamente, antes que algum enxerido sugira conservar o espaço, dando-lhe melhor uso, ou, o que é pior, ouvir as comunidades do entorno. E a resposta naturalmente é derrubá-la, já que não se pode atirá-la no mato, como seria do feitio do nativo urbano com ares de cosmopolit...

Coisa de pobre

  Inspirado no livro da moda, e dizer que um livro está na moda já pressupõe viés de classe num país de não leitores, pensei no que seriam as coisas de pobre. Seu ethos e marcas, suas especificidades e ritualísticas, suas vestimentas e modos de comer, habitar e viajar. Enfim, o conjunto mais ou menos heterogêneo de características (gostos, preferências, escolhas) que ajudam a montar a imagem mental que se tem do pobre no Brasil, no Nordeste, no Ceará. Tal empreitada antropológica iria requerer que o pesquisador deixasse de lado essa verdadeira tara da arte atual (cinema, televisão e mesmo a literatura) por retratar o 1% dos mais endinheirados, atraída sabe-se lá pelo quê – talvez pelas zonas cinzentas de moralidade de uma casta de privilegiados, como se o pobre fosse, além de desprovido materialmente, um quadro sem forma e fundo que não se prestasse a dramaticidades à altura das ambições estéticas contemporâneas. Como se fosse pobre também em valores, sentimentos e complexidade sub...

Brasil para colorir

Fiquei pensando nessa febre dos livros de pintar, os Bobbie Goods, brochuras terapêuticas que lideram rankings de vendas em eventos literários, os primeiros depois daquela pesquisa cujos resultados mostraram que o Brasil é majoritariamente um país de não leitores. Ou seja, somos mais como uma sociedade para colorir do que para ler, de preencher do que de entender, de repetir maquinalmente o gesto do que de suspender mecanismos rotinizados. Mais de contornar os problemas do que de deixar de lado esses “good feelings”, de vagarosamente ir ordenando tudo conforme uma paleta selecionada ao gosto de quem manuseia esse número finito de cores do que de aceitar que a realidade é informe e multicor. Enfim, talvez haja nessa mania uma chave qualquer para entender sabe-se lá que problemas atávicos, que retornam sempre pela porta dos fundos e aos quais respondemos com esses expedientes. Afinal, o que significa essa opção pela pintura em desfavor da palavra, do andamento irrefletido da mão no lugar...