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O menino da fila

Tem o coração suave, mas nem tanto, repetiu. A vida é boa. Costuma andar no parque da cidade mas apenas quando sente que se engordar mais um pouco perderá as namoradas conquistadas numa única noite, e, agora, o que não quer é perder qualquer pessoa, não quer perder nada, nem mesmo arriscar-se a ganhar, no que em alguma medida seria próximo de perder.

Os hábitos não são hábitos, são surtos que se encerram tão logo se concentre em algo suficientemente interessante, pensou também, e tudo isso veio enquanto esperava o próximo da fila terminar de passar a conta telefônica no leitor óptico, aquela luz estriada que percorre os códigos de barras como se fosse as mãos e ele, uma espécie de adivinhador do futuro que jamais vem.

Teme que a casa esteja fora de ordem quando voltar do trabalho, que os jarros das plantas hajam ressecado subitamente enquanto esteve fora, que a queda de energia inesperada no final da tarde possa ter danificado algum aparelho eletrônico que usa para espantar a falta de sono sempre que fica à espera do que não sabe o que é.

Ainda assim, tem o coração perfeito, suave, que navega agora mesmo em redemoinho mas navega a bem dizer manualmente, sem recorrer a expedientes extravagantes, tudo porque é um coração conservador, que deseja querer o que qualquer um quer, um coração que sequer pode ser diferenciado numa sala de aula da 3ª séria A, manhã, na quarta cadeira da segunda fila, bem ao lado da janela.

Mas não sabe o que é, pensa finalmente, e em seguida requer ao caixa do supermercado uma nova embalagem para as pilhas porque aquela, aquela que tinha em mãos, era muito inadequada para tudo que pretendia fazer.

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