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Não irei pedir seus documentos novamente, certo?

Adoro escrever aqui. Hoje mais que ontem, bem-entendido, quando tudo parecia tão distante e as palavras eram ramos de flores que eu sabiamente atirava ao chão porque não conseguia descobrir o que fazer com elas. Como talvez ainda não saiba. De qualquer forma, tento enfeitar o dia – idéia idiota – com um punhado dessas coisas que brilham de um modo diferente para cada um de nós e, claro, pesa de um modo diferente também. Ou nem pesa. Mas palavras tendem a pesar. Sinto isso todos os dias.

Mas ia dizendo que adoro escrever aqui. Adoro mesmo. Volto muitas vezes ao dia e releio trechos de postagens antigas. Rio comigo mesmo, das besteiras, das coisas engraçadas – muito poucas – e também das coisas que, cifradas, querem dizer bem mais que as bobagens de sempre, bem mais que pequenas confissões. Querem dizer que estou metido em alguma enrascada e, vejam só, vou levar algum tempo até descobrir como dela.

Era isso. Queria dizer que, mesmo agora, releio as coisas. Gosto das coisas. De como elas surgem e mais: por que elas surgem. O tempo não importa. Vou estar sempre aqui.

Era isso?

Não. Era bem mais que isso. O que dizemos é rascunho. Rascunho de outro rascunho, de outro rascunho, de outro rascunho, de outro...

Domingo se vai, domingo se vem. Obama foi eleito. Muitos se emocionaram. Confesso: passei em brancas nuvens. Sem trocadilhos, claro. Não vejo nada ali. Nada mesmo. Sou indiferente.

Obama é Lula? Lembrei da vitória de Lula. Como não lembrar da vitória de Lula no Brasil ao ver negros norte-americanos aos prantos por que finalmente um cara de cor chegou à White House?

Quando criança, tinha um modo curioso de ridicularizar as pessoas e situações. No caso das pessoas, bastava que as imaginasse defecando para perder totalmente o medo. Se era uma menina por quem estivesse apaixonado mas uma covardia congênita impedia qualquer aproximação, imaginava-a sentada no vaso. Era tiro e queda.

Se o problema estava na situação, o caminho era outro. Por exemplo: uma ida ao dentista vista de cima. Isso mesmo. Como se uma câmera visse tudo de um ângulo superior a todos nós. E lá estava eu, empoleirado na grua, vendo as coisas do tamanho que eu queria que elas tivessem.

Se isso ainda funciona? QUASE SEMPRE.

UM PARÊNTESE: minha mesa está entupida de livros de todos os tamanhos e cores. O que fazer com eles? Uma fogueira? Livros podem ser algo bom. Como se diz? “Educativo.” Até certo ponto. Depois, querem, exigem substituir a vida. Isso mesmo, metem-se onde não são chamados. Às vezes odeio meus livros.

Que mais? Amanhã é segunda-feira. Recomeço.

De repente as coisas degringolam. Sim, de repente. E isso não tem qualquer coisa a ver com poesia. Nada mesmo. Entendem? Elas simplesmente saem dos trilhos e tentam em vão caminhar sobre os pedregulhos. Depois descobrem que usam salto e não podem caminhar sobre uma superfície tão rugosa. Pisam em falso, caem, esfolam os joelhos. A vida é feita mesmo de joelhos esfolados? Os meus têm cicatrizes horríveis. Qualquer dia fotografo meus joelhos e colo aqui para provar o quanto sofri na infância.

OS JOELHOS DIZEM MAIS SOBRE AS PESSOAS DO QUE OS OLHOS.

Alguém – eu mesmo – me perguntou – me perguntei - se entendo de dilatação temporal? Fiquei sem resposta. Nos dois casos, sim. Quer dizer, o tempo passa diferentemente. Para mim e para vocês, há tempos diferentes, ondulações que podem se estender por meses ou anos em um caso ou breves quebradeiras em outro. De todo modo, o tempo aludido é mesmo assim: massa de modelar cheia de cabelos e pêlos.

PELOS: QUANTAS PALAVRAS POSSO FORMAR COM PÊLOS?

Por hoje é só. Amanhã é segunda-feira. “Tomorrow will be diferent”. Ao menos é o que costumo ouvir nesses filmes que querem dizer alguma... Como se diz? “Construtiva”. Depois lembro que não sou engenheiro civil.

Preciso bem mais das coisas destrutivas.

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