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Documentos, por favor!

Para animar o começo de semana - que veio de encomenda, acreditem -, algo saído da gaveta de Ana C.:

Projeto para um romance de vulto

- Você se importaria de ler algo sórdido? Não, não é bem algo sórdido, pelo contrário, é uma página importante que testemunha a obsessão de registrar todos os pormenores de uma mente e todo o desenrolar da história do pensamento. Eu me curvo e me escondo ante o que escrevi ao me entregar totalmente a esta obsessão. E sinto inclusive o infeliz medo da tua leitura mas fico subitamente feliz porque percebo que deste medo posso fazer outros textos que tematizem o medo e depois falem do texto que escrevi para aplacar o medo e dos outros textos que escrevi para aplacar os primeiros textos.


Mente vazia, mente vazia... Estive sonhando nas últimas horas, últimos dias. Primeiro assaltava um super-mercado. Depois, criava um dos episódios da quinta temporada da série predileta. Em seguida, era sumariamente demitido do emprego. Tentava entender por que tinha sido posto para fora, em vão. Um escroto desconhecido enchia o ar de acusações que sequer consigo lembrar, apenas que me magoavam profundamente. Acordei furioso. Não por ter sido demitido, mas por não enfiado três ou mais socos no estômago do idiota e um exemplar da bíblia todinho no seu cu.

Há dois meses mamãe ligou – falo mamãe por falar, nunca a tratei assim. É só a forma literária de dizer “mãe”. Queria saber se andava tudo bem, se Bob havia atacado alguém na rua, se os cães estavam presos e se eu olhava para os lados antes de abrir a porta e colocar os pés fora de casa todos os dias na hora de ir trabalhar – felizmente, ainda tenho emprego. Disse que não, que apenas tirava as chaves do bolso, escolhia a certa e a enfiava na fechadura. A porta então se abria, eu recebia alguns raios de sol enquanto caminhava até a parada de ônibus, a três quarteirões daqui.

“Sonhei que o cachorro branco te atacava”, confessou. Fiquei mudo. Logo quando chegamos na rua, no bairro, a cachorra teve chance de saltar no meu pescoço e me reduzir a nada. Quer dizer, a pasto. Digo, a uma saca de ração. Retifico: a 1/3 da saca de ração. Foi assim. Estava passando quando um carro, um Uno vinho estacionou na casa vizinha. Uma mulher desceu e deixou a porta entreaberta. A cachorra, uma pitbull alvíssima, pulou nos meus pés – quer dizer, aos meus pés. Cheia de preguiça, sequer olhou pra mim. Entrou em casa sem mais. Parado no meio da rua, eu juntava os cacos e tentava reatar as passadas.

Sonhos têm força. Pesadelos também. Não sonhem com cachorros bravos. Sonhem com planetas distantes. Planetas habitáveis. Daqui a pouco precisaremos de um desses, sim. Duvidam? Bom, isso é bom. Isso é definitivamente uma coisa boa. Gosto de conversar com pessoas cujas vidas estão marcadas rotineiramente pelo hábito pouco recomendável de duvidar sempre que algo supostamente ruim se coloca no caminho. Conheço pessoas que duvidam de tudo. Mesmo na hora do almoço, elas têm o costume de levantar a voz enquanto duvidam. Gostam de polêmicas. Os olhos e narinas se acendem quando podem dizer o que quer que seja, desde que digam o contrário do que está na roda. Quase sempre é assim.

Detesto pessoas que têm o péssimo hábito de duvidar em excesso. Os duvidosos contumazes são o terror de qualquer saidinha na sexta-feira à noite. Nas ceias de Natal, então...

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