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Ainda

1979 FOI UM ANO RUIM

PROPRIETÁRIA DA ANTIQUÁRIO, BANCA DE LIVROS QUE FICA NA PARQUELÂNDIA, DONA SOCORRO CARNEIRO CONTA COMO, À SEMELHANÇA DO PERSONAGEM CRIADO PELO ESCRITOR FERNANDO SABINO, “FEZ DA QUEDA UM PASSO DE DANÇA”

“Por favor, queria só que você acrescentasse uma coisa. Diga que, a cada frango que eu matava, um pedaço de mim morria junto.” Dona Socorro Carneiro de Morais, 66 anos, por telefone horas antes do fechamento da edição de domingo

Henrique Araújo>>>Especial para O POVO

Fosse um brinquedo, dona Socorro certamente seria um Lego, aquele jogo cujas peças podem formar qualquer coisa, apenas montando-se ou desmontando-se as formas assumidas anteriormente e empilhando-as em seguida para que desenhem o que se queira. Feita de pequenos pedaços de si, um dia Socorro Carneiro de Morais viu seu pequeno castelo vir abaixo. Entre 1979 e 1989, as partes fixas que sustentavam seu mundo foram minadas e, sem forças, ruíram. Com elas, uma vida dividida entre o morticínio de frangos destinados às sopas de uma antiga clínica psiquiátrica localizada no bairro Rodolfo Teófilo e a família, composta por marido e dois filhos. Reconstruí-la parecia tarefa para dez gerações. A aposentada levou dez anos.

Em 1979, mulheres são proibidas de ir a estádios de futebol no Irã, Bob Dylan converte-se ao cristianismo, Mario Quintana publica Na volta da esquina, o ato institucional nº 5 é extinto, os metalúrgicos do ABC paulista deflagram uma greve, a Rede Globo exibe a novela Feijão Maravilha, o parlamento israelense aprova tratado de paz com o Egito, é criada a Federação Piauiense de Futsal, João Figueiredo envia projeto de anistia ao congresso, assiste-se ao primeiro vôo de um Mirage e o Afeganistão é invadido pelos exércitos soviéticos. Também em 1979, dona Socorro vê um último frango debater-se frenético no terreiro de casa após seu pescoço ter sido torcido. Dali em diante, ela sofreria as conseqüências diretas e indiretas dos anos que havia devotado ao assassinato das aves. “Na minha vida, trabalhei com muita coisa. Fiz transporte escolar e trabalhei com confecção. Mas o pior mesmo foi abater frangos.” Foram dez anos matando os animais e outros dez se recuperando.

Enquanto tentava a todo custo colocar o nariz fora da poça em que se enfiara, dona Socorro tocava a vida. Criava os dois filhos e, depois, os três netos. Virava-se como podia. Dia e noite, porém, era assaltada por dúvidas as mais profundas. “De onde eu vim, para onde eu vou, quem eu sou? Todo mundo sente isso um dia. Fica sem caminho, sem rumo.” Em 1979, dona Socorro tinha 37 anos e um problema pela frente: retomar o prumo da própria vida. “Eu estava deprimida. Quer dizer, eu me rotulava assim.” A mortandade de frangos, mais os agravos familiares, puseram a mulher num estado de infelicidade que só piorava. Até que vieram o espiritismo e, a seguir, as revistas e livros usados.

De volta ao fluxo da vida

Dez anos não são dez dias. Nesse tempo, muita coisa aconteceu na vida de dona Socorro. Dois episódios concorrem entre si no seu processo de soerguimento. O primeiro deles: numa terça ou quinta ou sábado qualquer entre 1979 e 1989, a aposentada encontrou a doutrina criada por Alan Kardec. “Fui só a umas poucas reuniões, mas foram suficientes.” Após ter-se abancado no fundo do poço e percorrido algumas feiras livres da cidade à cata de alimentos, deu curso à montagem de suas pecinhas. Aos poucos, reestruturou-se.

O segundo episódio está intimamente ligado à idéia de reestruturação: no início dos anos 1990, dona Socorro deparou-se com uma banca de revistas perto de casa, na Parquelândia. A armação de ferro ocupava alguns palmos de chão ao lado da Igreja Redonda. Estava vazia. Rápido, ela acorreu à secretaria de planejamento do município e obteve autorização para começar ali um negócio. Passou a respirar sem embargo. “Ela me fez voltar a integrar o fluxo que eu era marginalizada e discriminada. Por isso quero ficar aqui a minha vida inteira.”

Dona Socorro e a Antiquário, banca de livros novos e usados, estão lá há quase vinte anos. À sombra de umas poucas árvores, a aposentada recebe livros e revistas velhos e os restaura. Nos dias de folga, conduz os mais sujinhos até a guilhotina e lhes corta menos de um centímetro de margem. Em casa, ganham também uma capa mais digna e uma espécie de título vistoso, escrito com pincel atômico — para que as pessoas vejam do ônibus que passa na avenida Jovita Feitosa. “Se eu trabalhasse com qualquer coisa, era reestruturando. Se trabalhasse numa sucata, era reestruturando. Mas eu trabalho com livros. Com os livros eu me renovo. Eu juntei os meus pedaços e tornei a me fazer gente. É um prazer muito grande fazer isso.”

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