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PASTMAN

Domingo chegando ao fim. Novidades? Eu, não. Tudo na mesma. Li o jornal, vi o jornal, ouvi o jornal. Tanto jornal deve fazer mal.

Curioso. Ultimamente tenho sentido alguma dificuldade para ler. Leio três, quatro páginas... E paro.

Acabo de ver uma foto do Albert Camus no site do Sérgio Rodrigues. Lembrei que, logo quando comecei a escrever, queria ter aquele rosto. Olhar perdido, cigarro pendendo dos lábios. E mais nada. Uma mãe morta? Nem pensar. Gosto da minha.

Curioso ter falado dele aqui. Não sabia mesmo de quem se tratava quando catei O estrangeiro na biblioteca do SESC, na rua 24 de Maio, ao lado da Igreja Universal do Reino de Deus. A mesma coisa aconteceu com Bukowski, Herman Hesse e, deixa ver, Fante.

Minto. Peguei o meu primeiro Fante emprestado com alguém da faculdade. Não lembro exatamente em que circunstâncias. 1933 foi um ano ruim foi o primeiro Fante. Cartas na rua foi meu primeiro Bukowski. Até hoje, o melhor. Melhor até que Misto quente — porque foi o primeiro.

Meu primeiro Hesse foi mesmo O lobo da estepe. Minha primeira Clarice foi Laços de família. Meu primeiro Fonseca foi O caso Morel — um susto. Não sabia que existia alguém que escrevesse daquele jeito. Automaticamente, virei um imitador de centésima vigésima quinta categoria.

Tantos nomes se espremendo numa cabeça atormentada de menino. Menino é modo de dizer: tinha lá meus 19 anos quando dei de cara com essa gente. Com a literatura. Antes, bem antes, tinha esbarrado com ela nas aulas de português: primeiro com os livros paradidáticos A ilha perdida e Tonico, da iluminada Coleção Vagalume. Depois com os próprios livros de português. Neles havia textos que encerravam sempre uma moral voltada para crianças — moral duvidosa, mas moral.

Lembro perfeitamente da historinha da raposa e do corvo. Ou da raposa e do tucano. Ou da raposa e outra ave qualquer. Lembro dos poemas de Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Mário Quintana. Lembro da professora lendo ou fazendo ler. Em outras palavras, sofrendo ou fazendo sofrer.

Depois vieram as gramáticas. Mais poesias. Conheci Leminski. Conheci Ferreira Gullar. Conheci... Conheci uma porção de gente lendo ou só folheando os livros de português e as gramáticas. Mais os manuais de redação do terceiro e último ano de colégio.

Depois veio a seleta de poemas de Drummond perdida no closet do meu quarto. Antes de mim, bem antes de mim, havia o meu pai. Com ele, o hábito de tomar livros emprestado e não devolver (não espalhem isso). Jack, o Estripador, comprado por um de meus primos, vivia bolando nas cadeiras de casa. Portanto, o Drummond jogado ali tivera outro ou outros donos antes de se converter no meu grande livro de cabeceira.

Assim, comecei poeta. Que nem Drummond. Comecei porque, antes de mim, alguém havia escrito A morte do leiteiro, Poema de sete faces, A flor e a náusea e outras coisas. Drummond era a prova de que literatura podia ser legal. Literatura era legal. Mas doía a valer. Via isso nos poemas. Queria sofrer tanto quanto os poetas. Pior: eu já sofria e nem sabia.

Bom, esses foram os primeiros passos. Os primeiros de uma série interminável de primeiros passos. Depois, se quiserem, posso contar como comecei a jogar bola de verdade. Ou como fui campeão de futebol de botão por quinze ou vinte vezes no meu bairro antigo, o Conjunto Ceará.

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