À beira de seus 300 anos, tenho pensado na cara de Fortaleza, se há de fato um traço que a traduz, uma palavra que a represente, uma característica, uma pose, um modo de falar ou mangar, enfim, um jeito tipicamente seu de representar a si em meio a tantas outras cidades de outros tantos lugares do mundo.
Quero saber se a reconheceria fora, como se reconhece o sotaque de um cearense em qualquer parte do mundo, se a tomaria por minha mesmo supondo que fosse outra, se desembarcaria no Pinto Martins ou na rodoviária e saberia que voltei, se andaria pela Mister Hull ou pela Osório de Paiva e intuiria que Fortaleza é maior.
Correndo o risco do reducionismo, perguntaria se esse vezo para a galhofa não seria uma senha, um ethos familiar que é infamiliar, uma proximidade cheia de intimidade que é um tanto de invasão de privacidade, um cuidado que é atrevimento, um respeito que é descuido, um dar de ombros que é abandono, um governo que é desgoverno das coisas.
Tudo isso se justifica. Afinal, não é todo dia que se comemora um aniversário tão importante. Três séculos de história nas costas, uma metrópole sempre remoçada ao custo do projeto de gente endinheirada. Um monumento ao ácido hialurônico, selva de pedra espichada, suas árvores ressequidas por canetinhas de emagrecimento, edifícios de carnaubeiras concretadas e palmeiras mirradas.
Mas tinha por intenção procurar um signo que lhe seja particular, próprio, uma marca, uma cara, nem que fosse feia, revirada, torta desse riso que é careta, como a gente muitas vezes é ao longo do dia, quando se revira de tanto rir para disfarçar uma malquerença que acompanha feito espírito obsessor, uma azia da alma persistente.
Ocorre que a cidade não se entrega fácil, é jeitosa nesse mascaramento, no disfarce, no jogo duplo e triplo do aterramento (camadas de areia sobre areia). É cigana e oblíqua, mas apenas se quem contar a sua história for um palerma como era Bento Santiago, esse indivíduo aburguesado que desconfiava da própria sombra e mal se via no seu ar ridículo, um tipo machadianamente “heterotopíssimo” de boa cepa que se encontra facilmente em qualquer convescote do PIB.
Então, sendo ou não sendo, não desisto de buscar talvez numa molecagem inaugural e atávica a forma suprema de decifração da urbanidade cabocla. Talvez nessa natureza desabrida uma brecha para entender o gentio acanalhado. Talvez numa aridez programática e oficial o projeto de nunca ir para adiante, sempre andando de lado, aos pulinhos.
Como João Inácio agora, nos seus saltinhos de deboche com tênis coloridos e mesuras de salão atualizadas para as redes, um arranjo visual e estético único e ordinário (“dresscode” de passeio de domingo no shopping) arrematado com a pergunta que espicaça a curiosidade do nativo: será que sou?
Será que sou (rico, branco, macho, religioso, famoso, bonito, forte, pegador, viajado, exibido etc.)? Trata-se de uma dúvida tipicamente fortalezense no que tem de preocupação mais com o alheio do que com o próprio.
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