Tio, estou doente, mas só um pouco, respondeu a sobrinha, logo desfazendo o nó que lhe havia crescido na barriga ao ouvir o relato dramático da mãe, na cabeça a sobrinha estava prestes a desencarnar, mas longe disso, podia agora livrar-se apenas por algumas horas do breve incômodo que se apodera das almas sem vínculos e dos corpos flutuantes.
Por enquanto, tudo era diferente. Distante da família havia semanas, afundado nos próprios termos, negócios, taras, velhacarias abundantes, uma existência particular, desprendida, a voz da sobrinha então soava plena de vigor, uma raiz de tão forte arrebenta a calçada e cresce tortuosa, a contragosto de todas as horas enfermiças. O mágico cozimento do tempo levado ao afago da avó, da troca de palavras desajeitada com a bisavó, do longo abraço no avô recém-chegado.
Tio, repetiu, estou bem, estou apenas brincando, não é pintando, é brincando, ouviu mais uma vez, e sorriu.
Esse foi o ano dos bebês reborn e dos labubus, dos dispositivos de substituição e transferência de afeto, da desafetação e do dar de ombros para o desfile acelerado da vida. Ano do boom da IA e da promessa de um futuro edênico no qual o virtual e o real se equivalem, ano da tiktokzação do sofrimento e da grande diáspora das redes. Ano da fuga das galinhas, dos filmes de terror e do Neymar, ano da prisão e da romantização da prisão dos famosos e do presidente em sua eterna crise de soluço. Ano do vazamento e da sorte de adivinhar os temas sobre os quais milhões sonham em escrever na hora da prova, ano do mecanismo da sorte, da estrutura secreta que produz o futuro. Ano do ostracismo do panetone e da reabilitação do ovo, ano da graça e também da desgraça, ano do recolhimento meditabundo e do desbunde, da ioga e do forró raiz. Ano das desescritas do eu, da arte do baixo ventre, da grafia do corpo sem corpo, enfim, ano de toda sorte de golpe mercadológico para vender mais no país q...
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