Pular para o conteúdo principal

Conversar com fantasmas (ii)

 Que rastros a falta de imagens dos homens que se casaram com minhas avós produziu na narrativa fotográfica da família a partir do único álbum que restou íntegro desde o início da década de 1980, ano de meu nascimento e data inaugural da confecção dessa reunião de fotografias? O álbum empobrecido que tenho agora em mãos, mas que me recuso a abrir, reduzido ao osso após tantas perdas, falhas de arquivamento e ações múltiplas de deterioração de suas páginas. 

As fotos que narram meu próprio crescimento, uma história interrompida por volta dos 18 anos, quando civilmente, para todos os efeitos, nos tornamos adultos. Todas as fases demarcadas com seus momentos-síntese: o batismo, a cerimônia de doutores do ABC, as férias escolares, o banho de mar, uma pose em frente ao monumento em homenagem ao esgotamento sanitário, uma com os irmãos na festa de aniversário, mais uma do meu aniversário de cinco anos, uma foto ao lado do pai, que tem uma bola a seus pés mesmo sem nunca ter sido muito hábil jogador. 

Só então vejo que tenho poucos registros com o pai. Ele também seria um fantasma? O pai ainda muito jovem na praia, corpo bronzeado. Ou com a camisa aberta no peito. O pai é figura também escassa, suas aparições se limitam a esses momentos festivos durante os quais obrigatoriamente todos devem estar presentes, seja como protagonistas ou figurantes. Como parte dos ritos da família, cumpre seu papel. Em seguida, desaparece. 

O pai empreende sua fuga, abre-se o mundo para ele e ele para o mundo. Lembro de vê-lo sumir, lembro de não o ter por perto durante esses anos todos aos quais o álbum tenta dar forma, operando como testemunho de que existimos, congelando essa passagem do tempo e oferecendo uma coleção de instantes fechados, unos de significado, como uma música de fundo que o álbum toca apenas para meus ouvidos. O pai não está lá, ela diz. O pai saiu. O pai não voltará nesta noite.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

“Romerobritização” de Fortaleza

  Foi apenas quando li o anúncio prometendo uma “Aldeota no Eusébio” que me dei conta dessa “romerobritização” de Fortaleza, ou seja, a paulatina substituição de seus signos mais antigos (nem sempre bonitos, mas históricos) por uma estética não apenas nova, mas cafona e estridente, facilmente replicada em qualquer lugar. Uma metrópole feita por IA, com padrões copiados aqui e ali, espigões e requalificações, prédios espichados e um centro urbano ao Deus dará. Enfim, um aterro visual que impõe à cidade o apagamento de seu tecido e a rasura de seus marcos, mas sobre isso tenho falado tanto que me dá certa gastura. Um exemplo é a ponte velha, agora convertida em problema para o qual é preciso encontrar uma solução rapidamente, antes que algum enxerido sugira conservar o espaço, dando-lhe melhor uso, ou, o que é pior, ouvir as comunidades do entorno. E a resposta naturalmente é derrubá-la, já que não se pode atirá-la no mato, como seria do feitio do nativo urbano com ares de cosmopolit...

Coisa de pobre

  Inspirado no livro da moda, e dizer que um livro está na moda já pressupõe viés de classe num país de não leitores, pensei no que seriam as coisas de pobre. Seu ethos e marcas, suas especificidades e ritualísticas, suas vestimentas e modos de comer, habitar e viajar. Enfim, o conjunto mais ou menos heterogêneo de características (gostos, preferências, escolhas) que ajudam a montar a imagem mental que se tem do pobre no Brasil, no Nordeste, no Ceará. Tal empreitada antropológica iria requerer que o pesquisador deixasse de lado essa verdadeira tara da arte atual (cinema, televisão e mesmo a literatura) por retratar o 1% dos mais endinheirados, atraída sabe-se lá pelo quê – talvez pelas zonas cinzentas de moralidade de uma casta de privilegiados, como se o pobre fosse, além de desprovido materialmente, um quadro sem forma e fundo que não se prestasse a dramaticidades à altura das ambições estéticas contemporâneas. Como se fosse pobre também em valores, sentimentos e complexidade sub...

Brasil para colorir

Fiquei pensando nessa febre dos livros de pintar, os Bobbie Goods, brochuras terapêuticas que lideram rankings de vendas em eventos literários, os primeiros depois daquela pesquisa cujos resultados mostraram que o Brasil é majoritariamente um país de não leitores. Ou seja, somos mais como uma sociedade para colorir do que para ler, de preencher do que de entender, de repetir maquinalmente o gesto do que de suspender mecanismos rotinizados. Mais de contornar os problemas do que de deixar de lado esses “good feelings”, de vagarosamente ir ordenando tudo conforme uma paleta selecionada ao gosto de quem manuseia esse número finito de cores do que de aceitar que a realidade é informe e multicor. Enfim, talvez haja nessa mania uma chave qualquer para entender sabe-se lá que problemas atávicos, que retornam sempre pela porta dos fundos e aos quais respondemos com esses expedientes. Afinal, o que significa essa opção pela pintura em desfavor da palavra, do andamento irrefletido da mão no lugar...