O ato de desfazer o malfeito, reparar o trabalho operado em prejuízo de um coletivo, reverter o movimento das pás de máquinas e usá-las em favor de um reassentamento, devolvendo à praia o que lhe falta, a areia extraída de novo posta em solo, o ângulo de entrada no mar atenuado, a descida suavizada. Tudo isso é desaterro, é fazer bem o que se fez ao revés, ainda que com boas intenções ou talvez não tão boas assim. Imagino uma campanha na cidade, pessoas às voltas com os mais diferentes tipos de equipamento a fim de recuperar o que foi tirado, reaver aquele sentido de mar e de praia que a muito custo se foi consolidando, rejeitar essa imagem de praia-estacionamento ou praia-shopping, aonde se vai para o consumo dos bens, dos cardápios e das quinquilharias, e não ao descanso e à escapada do frenesi visual.
Foi apenas quando li o anúncio prometendo uma “Aldeota no Eusébio” que me dei conta dessa “romerobritização” de Fortaleza, ou seja, a paulatina substituição de seus signos mais antigos (nem sempre bonitos, mas históricos) por uma estética não apenas nova, mas cafona e estridente, facilmente replicada em qualquer lugar. Uma metrópole feita por IA, com padrões copiados aqui e ali, espigões e requalificações, prédios espichados e um centro urbano ao Deus dará. Enfim, um aterro visual que impõe à cidade o apagamento de seu tecido e a rasura de seus marcos, mas sobre isso tenho falado tanto que me dá certa gastura. Um exemplo é a ponte velha, agora convertida em problema para o qual é preciso encontrar uma solução rapidamente, antes que algum enxerido sugira conservar o espaço, dando-lhe melhor uso, ou, o que é pior, ouvir as comunidades do entorno. E a resposta naturalmente é derrubá-la, já que não se pode atirá-la no mato, como seria do feitio do nativo urbano com ares de cosmopolit...
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