O ato de desfazer o malfeito, reparar o trabalho operado em prejuízo de um coletivo, reverter o movimento das pás de máquinas e usá-las em favor de um reassentamento, devolvendo à praia o que lhe falta, a areia extraída de novo posta em solo, o ângulo de entrada no mar atenuado, a descida suavizada. Tudo isso é desaterro, é fazer bem o que se fez ao revés, ainda que com boas intenções ou talvez não tão boas assim. Imagino uma campanha na cidade, pessoas às voltas com os mais diferentes tipos de equipamento a fim de recuperar o que foi tirado, reaver aquele sentido de mar e de praia que a muito custo se foi consolidando, rejeitar essa imagem de praia-estacionamento ou praia-shopping, aonde se vai para o consumo dos bens, dos cardápios e das quinquilharias, e não ao descanso e à escapada do frenesi visual.
Esse foi o ano dos bebês reborn e dos labubus, dos dispositivos de substituição e transferência de afeto, da desafetação e do dar de ombros para o desfile acelerado da vida. Ano do boom da IA e da promessa de um futuro edênico no qual o virtual e o real se equivalem, ano da tiktokzação do sofrimento e da grande diáspora das redes. Ano da fuga das galinhas, dos filmes de terror e do Neymar, ano da prisão e da romantização da prisão dos famosos e do presidente em sua eterna crise de soluço. Ano do vazamento e da sorte de adivinhar os temas sobre os quais milhões sonham em escrever na hora da prova, ano do mecanismo da sorte, da estrutura secreta que produz o futuro. Ano do ostracismo do panetone e da reabilitação do ovo, ano da graça e também da desgraça, ano do recolhimento meditabundo e do desbunde, da ioga e do forró raiz. Ano das desescritas do eu, da arte do baixo ventre, da grafia do corpo sem corpo, enfim, ano de toda sorte de golpe mercadológico para vender mais no país q...
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