Passávamos ao lado, as barracas como esqueletos antediluvianos, formas antigas, carcaças de animais mortos deixados para trás. Restos de teto, paredes inteiras erguidas e agora esquecidas, tufos de palhas presas umas às outras por quase nada, o reboco condenado, tudo um arranjo prestes a cair, mas ainda assim de pé, como se a permanência ali dependesse de um acerto comum e nunca da ação individual de cada parte. O solo como um chão lunar, o vento forte de setembro dobrando a vegetação, coqueiros inclinados em ângulos de 30 graus. Uma pista vazia adiante, depois uma curva e mais à frente a duna, a subida íngreme vencida aos poucos por um grupo de pessoas que foi até ali, presumo, para ver o pôr do sol. Dúzias de carros estacionados à beira do asfalto, fileiras de motos e, no alto, pequenas sombras tapando a luminosidade com a mão em aba, à espera de que desse a hora para refazerem o caminho, agora duna abaixo, controlando a força de cada pisada de modo a não desabar. O fluxo de carros tranquilo àquela hora, quase como uma dormência automotiva, cada veículo parte de outro e de outro, todos para o mesmo destino embora fossem destinos diferentes.
Esse foi o ano dos bebês reborn e dos labubus, dos dispositivos de substituição e transferência de afeto, da desafetação e do dar de ombros para o desfile acelerado da vida. Ano do boom da IA e da promessa de um futuro edênico no qual o virtual e o real se equivalem, ano da tiktokzação do sofrimento e da grande diáspora das redes. Ano da fuga das galinhas, dos filmes de terror e do Neymar, ano da prisão e da romantização da prisão dos famosos e do presidente em sua eterna crise de soluço. Ano do vazamento e da sorte de adivinhar os temas sobre os quais milhões sonham em escrever na hora da prova, ano do mecanismo da sorte, da estrutura secreta que produz o futuro. Ano do ostracismo do panetone e da reabilitação do ovo, ano da graça e também da desgraça, ano do recolhimento meditabundo e do desbunde, da ioga e do forró raiz. Ano das desescritas do eu, da arte do baixo ventre, da grafia do corpo sem corpo, enfim, ano de toda sorte de golpe mercadológico para vender mais no país q...
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