Passávamos ao lado, as barracas como esqueletos antediluvianos, formas antigas, carcaças de animais mortos deixados para trás. Restos de teto, paredes inteiras erguidas e agora esquecidas, tufos de palhas presas umas às outras por quase nada, o reboco condenado, tudo um arranjo prestes a cair, mas ainda assim de pé, como se a permanência ali dependesse de um acerto comum e nunca da ação individual de cada parte. O solo como um chão lunar, o vento forte de setembro dobrando a vegetação, coqueiros inclinados em ângulos de 30 graus. Uma pista vazia adiante, depois uma curva e mais à frente a duna, a subida íngreme vencida aos poucos por um grupo de pessoas que foi até ali, presumo, para ver o pôr do sol. Dúzias de carros estacionados à beira do asfalto, fileiras de motos e, no alto, pequenas sombras tapando a luminosidade com a mão em aba, à espera de que desse a hora para refazerem o caminho, agora duna abaixo, controlando a força de cada pisada de modo a não desabar. O fluxo de carros tranquilo àquela hora, quase como uma dormência automotiva, cada veículo parte de outro e de outro, todos para o mesmo destino embora fossem destinos diferentes.
Foi apenas quando li o anúncio prometendo uma “Aldeota no Eusébio” que me dei conta dessa “romerobritização” de Fortaleza, ou seja, a paulatina substituição de seus signos mais antigos (nem sempre bonitos, mas históricos) por uma estética não apenas nova, mas cafona e estridente, facilmente replicada em qualquer lugar. Uma metrópole feita por IA, com padrões copiados aqui e ali, espigões e requalificações, prédios espichados e um centro urbano ao Deus dará. Enfim, um aterro visual que impõe à cidade o apagamento de seu tecido e a rasura de seus marcos, mas sobre isso tenho falado tanto que me dá certa gastura. Um exemplo é a ponte velha, agora convertida em problema para o qual é preciso encontrar uma solução rapidamente, antes que algum enxerido sugira conservar o espaço, dando-lhe melhor uso, ou, o que é pior, ouvir as comunidades do entorno. E a resposta naturalmente é derrubá-la, já que não se pode atirá-la no mato, como seria do feitio do nativo urbano com ares de cosmopolit...
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