Pular para o conteúdo principal

Um exercício

 

Comecei a ler sobre Óbidos e terminei em algum ponto entre dois autores de que gosto, um artigo em inglês sobre Munch e outro cujo tema agora não vem ao caso. É noite de agosto de um ano interrompido, uma noite de ventos fortes como há muito não via, um assobio persistente atravessando as janelas por suas frestas enquanto o gato se encolhe no meio da sala, os pelos movendo-se como um campo de trigo varrido pela brisa.

Rapidamente, cada página levou a outra e a mais outra, criando conexões que ora não existiam, ora estavam ali, subliminares, como os vínculos que estabelecemos entre coisas díspares. Nesse intervalo, anotei dois bons nomes para algo que não sei o que é mas que talvez venham a se tornar outra coisa igualmente desconhecida.

De modo que proceder assim, aos saltos, me ajuda quando preciso baixar a guarda depois de passar a semana esgrimindo palavras de uso gasto para descrever cenas e motivações de pessoas de quem sei apenas nome e sobrenome, mas com quem converso mais do que com minha mãe.

É como uma ginástica, um jeito de trocar de figurino ou se espreguiçar deitado na cama, uma transição entre perfis distintos, ou pelo menos é assim que gostaria que fosse, uma funcionalidade a meu alcance, a conveniência de escolher entre avatares diferentes para assumir tarefas igualmente separadas por sua natureza.

Às vezes, porém, me incomodo em coincidir comigo mesmo quando exerço o trabalho, então ocorre de, no fim de semana ou mesmo durante a semana, tirar folga de mim e incorporar esse outro, uma derivação da personalidade que adoto, a de quem escreve objetiva e falsamente sobre determinados assuntos delimitados por um certo olhar e um certo conjunto de regras, textos que depois serão lidos ou não aceitando-se que deles não se extrairá nada além do que há exposto ali, num processo de empobrecimento consentido da escrita.

Voluntária ou involuntariamente, saio desse cercado e tento dar voltas, esticar as pernas, experimentar novamente a corrida e a força dos braços, de maneira a me certificar de que ainda estão aí, ainda sei usá-los para o que não seja o trabalho.

É o que faço agora, como se colocasse uma velha engrenagem a se movimentar, ouvindo de longe o rangido de estruturas paradas e em cuja superfície há um acúmulo de fixidez pelo tempo de desuso ou mesmo de mau uso, quando acontece frequentemente.

Em algum momento, no entanto, espero que Óbidos, Munch, os dois autores, o trabalho, o vento e a noite de agosto façam parte da mesma história, que esses elos sejam de fato elos e não apenas o salto arbitrário entre abismos que ficam para trás.

Quanto aos nomes anotados, do que tratam mesmo? Gosto de que possam servir para qualquer coisa, e de fato é isso que são, palavras ou expressões que posteriormente se prestem a todo exercício, como uma roupa autoajustável que, posta no corpo, faz o que tem de fazer.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Terminando o ano

  Esse foi o ano dos bebês reborn e dos labubus, dos dispositivos de substituição e transferência de afeto, da desafetação e do dar de ombros para o desfile acelerado da vida. Ano do boom da IA e da promessa de um futuro edênico no qual o virtual e o real se equivalem, ano da tiktokzação do sofrimento e da grande diáspora das redes. Ano da fuga das galinhas, dos filmes de terror e do Neymar, ano da prisão e da romantização da prisão dos famosos e do presidente em sua eterna crise de soluço. Ano do vazamento e da sorte de adivinhar os temas sobre os quais milhões sonham em escrever na hora da prova, ano do mecanismo da sorte, da estrutura secreta que produz o futuro. Ano do ostracismo do panetone e da reabilitação do ovo, ano da graça e também da desgraça, ano do recolhimento meditabundo e do desbunde, da ioga e do forró raiz. Ano das desescritas do eu, da arte do baixo ventre, da grafia do corpo sem corpo, enfim, ano de toda sorte de golpe mercadológico para vender mais no país q...

Coca normal

A moça do caixa pergunta se a Coca “é normal ou zero”. Respondo: “normal”, mas logo me assombro com a normalidade angustiante da Coca normal. Olho de repente para a lata vermelha com letras brancas, e o mundo gira em falso. Tento identificar na sua forma geométrica a qualidade que lhe conferiria um enquadramento dentro das expectativas de um padrão de consumo, o que por certo justificaria essa escolha vocabular em contraste com a anormalidade de outra Coca, esta classificada como “zero”, logo como desviante. “Normal”, repito, e por normal quero dizer o quê? Já não sei, não faço ideia. Rodopio no espaço-tempo semântico. Mas continuo a dizer normal sempre que me pedem para escolher entre esta e aquela, como alguém que gosta mais de maçã do que de uva ou banana. Estou parado na fila, ouço o farfalhar das línguas estalando de impaciência atrás de mim. Até esboço um sorriso. Um meio sorriso que se arma não ironicamente para sinalizar que os termos dessa transação linguística são outros, ou ...

Artes da lentitude

  Lentitude: trata-se de uma dessas palavras com que topei ao acaso e que remete a toda ação que pretenda de algum modo frear o tempo, estancar a corrida, sanar o descompasso e retardar essa defasagem entre o biológico e o social que se instaura no capitalismo tardio (ou tardo-capitalismo, ou pós-capitalismo tardio, ou pós-modernidade tardia etc.). Ler volumes antigos ou novos, quem sabe, ver filmes inteiros, ouvir discos até o final, demorar-se em qualquer atividade cuja realização requeira um grau maior e já em desuso de atenção, examinar de perto e com genuíno interesse o crescimento das plantas e a qualidade da água dos peixes, antes que morram por falta de oxigênio. Enfim, ter com as coisas uma relação estendida e continuada, eu diria desligada de qualquer noção de esgotamento pelo consumo, de pedagogia mercantil, de fruição pelo fragmento e experimentação de uma miudeza que se basta porque dispensa o conhecimento que ultrapasse o ponto. Suspeito que a gente tenha se content...