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Saudosa maloca



Maloca é palavra dúplice, tríplice talvez, que designa habitação indígena ou cabana de simplicidade visível e mambembe dentro da qual se reúnem membros da mesma tribo, confinados ali de bom grado ou porque foram “aldeados”, postos no ajuntamento por um outro, um alheio.

Daí vem, por exemplo, o nome do bairro, Aldeota, e apenas isso já diz bastante. De maloca deriva também “malocar”, que quer dizer esconder, fazer passar por oculto e desapercebido. Os dois sentidos se cruzam em algum momento – a maloca é eventualmente esse espaço onde é malocada uma palavra ou um objeto, seja por que razão for. Maloca-se o que se faz roubar da vista, o que se esconde, um desvio do olhar.

Como a língua é um prazer que se desdobra infinitamente, criando significados sobre significados, esse processo de composição de palavras nunca tem fim, e por isso falamos em “maloqueiro”, aquele que maloca. Não necessariamente o assaltante, o contraventor ou pirangueiro. Não. O maloqueiro está um degrau acima: é um sujeito hábil e furtivo cujos trajes e modos de fala levantam suspeitas – do quê? Nunca se sabe ao certo, e desse não saber ele extrai a sua riqueza, a sua potência.

O maloqueiro, por assim dizer, está muito próximo do malandro, esse arquétipo brasileiro que se decantou ao longo do tempo e é facilmente reconhecido por qualquer um na rua ou numa roda de conversa por seus hábitos insidiosos, elusivos: o malandro nem sempre subtrai, ele é a hipótese de um engano.

“Tenho pra mim” (obrigado, pai, por me legar essa linda expressão) que o maloqueiro está para o cearense como o malandro para o carioca. É um tipo genuinamente nosso no duplo sentido de sua acepção, a dicionarizada e a informal/popular: o que se ajunta com outros num mesmo teto/projeto para levar vantagem, colonizando espaços como num jogo de conquista e avanço cuja finalidade é o poder.

E o que usa o discurso para “malocar” intenções, operando malandramente como um feiticeiro da língua, criando signos ao vento e a fundo perdido, fundando um reino de fabulações e amavios – por isso é também essencialmente um sedutor, um galante macho repleto de maneirismos de enamoramento.  

Um encantador de audiências, a bem dizer, cujas capacidades residem sobretudo em fazer-se portador de uma mensagem nova e velha ao mesmo tempo, mas que enovela na sua narrativa. Eis, em suma, o maloqueiro nativo e letrado, que, de tanto apostar no truque e no falseamento, termina por achar-se desmascarado, ou seja, descoberto em seus estratagemas e mediações fantasiosas.

A ruína do maloqueiro não é somente o fracasso do encanto, mas que a sua saudosa maloca se disperse e o poder evanesça, dissipando-se ou, pior, reagrupando-se em torno de outro. 

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