Há dias procuro um livro
específico que não sei qual é, mas a bagunça das estantes não tem ajudado.
Reviro as pilhas, inspeciono as lombadas, checo atrás das prateleiras
abarrotadas e reabro portas de armários há muito fechadas. Nada. Não está lá. É
um livro de capa fina, dessas que dobram e amassam facilmente e nas quais há
uma infinidade de marcas de dedos de todas as pessoas que manusearam o livro.
Se o folheamos, de dentro desprende-se um cheiro antigo, odor de mãos e pele e
objetos esquecidos, manchas invisíveis que foram se acumulando – uma de café,
outra de uma substância que não consigo identificar, mas que associo a
manteiga ou a algum produto gorduroso. Não recordo a história. Na verdade, não
mantive um fiapo de nada do enredo nem dos personagens, apenas a vaga noção de
que deveria encontrá-lo em algum ponto do quarto, entre as torres de pequenos
volumes nunca lidos que fui juntando e os que efetivamente li. Todavia, não é
fácil achar coisas esquecidas, e esse livro, pelo que sei, já deveria ter
aparecido. Sou bom nisso. Investigar rastros, mapeá-los até a origem e,
mediante algum esforço, identificar o ponto de partida. Mas, no caso desse
livro em especial, tenho falhado até agora. Apesar dos fracassos que se
sucederam, permaneço alerta, atento a qualquer possibilidade de que o livro
resolva aparecer por si. Uma hora, quando menos esperar, ele vai surgir ao lado
de uma revista ou sobre a escrivaninha, atravessado como um desses gatos que se
esticam no tampo da mesa antes de dormirem.
Foi apenas quando li o anúncio prometendo uma “Aldeota no Eusébio” que me dei conta dessa “romerobritização” de Fortaleza, ou seja, a paulatina substituição de seus signos mais antigos (nem sempre bonitos, mas históricos) por uma estética não apenas nova, mas cafona e estridente, facilmente replicada em qualquer lugar. Uma metrópole feita por IA, com padrões copiados aqui e ali, espigões e requalificações, prédios espichados e um centro urbano ao Deus dará. Enfim, um aterro visual que impõe à cidade o apagamento de seu tecido e a rasura de seus marcos, mas sobre isso tenho falado tanto que me dá certa gastura. Um exemplo é a ponte velha, agora convertida em problema para o qual é preciso encontrar uma solução rapidamente, antes que algum enxerido sugira conservar o espaço, dando-lhe melhor uso, ou, o que é pior, ouvir as comunidades do entorno. E a resposta naturalmente é derrubá-la, já que não se pode atirá-la no mato, como seria do feitio do nativo urbano com ares de cosmopolit...
Comentários