É hora do almoço, e o restaurante fecha às 13h
em ponto. Funciona como uma repartição muito antiga de cuja pontualidade
dependesse o equilíbrio de energias universais, polos que se opõem e nessa
disputa mantêm-se entretecidos um ao outro. Mas é apenas um restaurante, lugar aonde vou
se preciso comer de manhã cedo ou no meio da tarde. Hoje ainda não comi. Estive
durante muito tempo engolfado numa espécie de nódoa. Um visco que tento
afastar, mas está aqui. Gruda, desliza, recobre o corpo, pernas e braços,
pescoço e tórax. Prende-se ao pau e aos pés. Não há como descamá-lo. Inútil desfazer-se
da sombra. Sorte se entrasse numa loja de cosméticos e me vendessem o produto
adequado para esfoliar da pele tudo que é matéria morta e veneno próprio. Mas nisso
estou com pouca sorte. A esta hora nada abre, tudo fecha. Como se disso
dependesse o arbítrio que governa cada pequena forma de vida.
Foi apenas quando li o anúncio prometendo uma “Aldeota no Eusébio” que me dei conta dessa “romerobritização” de Fortaleza, ou seja, a paulatina substituição de seus signos mais antigos (nem sempre bonitos, mas históricos) por uma estética não apenas nova, mas cafona e estridente, facilmente replicada em qualquer lugar. Uma metrópole feita por IA, com padrões copiados aqui e ali, espigões e requalificações, prédios espichados e um centro urbano ao Deus dará. Enfim, um aterro visual que impõe à cidade o apagamento de seu tecido e a rasura de seus marcos, mas sobre isso tenho falado tanto que me dá certa gastura. Um exemplo é a ponte velha, agora convertida em problema para o qual é preciso encontrar uma solução rapidamente, antes que algum enxerido sugira conservar o espaço, dando-lhe melhor uso, ou, o que é pior, ouvir as comunidades do entorno. E a resposta naturalmente é derrubá-la, já que não se pode atirá-la no mato, como seria do feitio do nativo urbano com ares de cosmopolit...
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