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Entre a ruína e a saudade*

O que é uma cidade? É o que vemos? É onde moramos? Eu me faço essas perguntas quase todos os dias, antes ou depois de sair de bicicleta para uma volta rápida. Meu caminho é uma reta com poucas digressões. Pedalo e espero que a inércia cumpra sua parte. Aqui e ali, aperto bruscamente o freio. Quase caio. Um carro parado na faixa. Um ambulante. Um pedestre que atravessa sem olhar para os lados. Entulho. Podas de árvore. Desvios de rota.

Extraio uma moral. Mesmo a reta é tortuosa. Penso na ruína da cidade e na cidade-ruína. Lembro das fotos que vi no dia anterior. São imagens de jovens perdidos num passado que era a promessa de outro tempo. Esse tempo chegou. Leio em algum lugar: “A nostalgia é uma utopia às avessas”. Continuo pedalando. Outra série de perguntas vem a cada esquina: do que tenho saudade? De quem? Por quê? Um carro avança sobre a faixa e recua. Cede passagem. Cruzo lentamente, gozando o momento – alguém interrompeu o seu trajeto para que o meu se realizasse. A cidade é um acordo, é uma relação. É preciso vivê-la como troca amorosa. Às vezes, falha. Às vezes, funciona.

Extraio uma nova moral: a saudade é a nova ética do presente. Vivemos mergulhados no tempo descontinuado, um tempo sem tempo. O acúmulo sempre foi uma das definições para cultura. O que acumulamos hoje? Acumulamos saudade do que não vivemos. Escolhemos a palavra desapego como novo fetiche, mas do que desapegamos? Livros, roupas, emprego, carro. Acho que desapegar-se é um apego sem medo. Saudade, então, é não ter medo do que esse tempo sempre-agora traz pra gente.

Vejo a imagem do prefeito borrifando tinta num muro. O muro é colorido. A tinta usada pelo gestor, que não gosta de ser confundido com político, é cinza. Tento imaginar de que maneira conseguiria explicar pra minha filha por que alguém iria querer descolorir um muro e cobri-lo de cinza. É como se pedisse que jogasse fora todos os lápis de cor e ficasse apenas com um. Não encontro resposta. Rio do nome do programa que batiza o cinza no muro: “Cidade Linda”. Agachado, sorridente enquanto posa para fotos, o prefeito é novo, mas surpreendentemente velho.

Na cultura moderna, a metáfora da ruína encontra paralelo apenas com a do zumbi. Corpo morto-vivo, no limiar de se tornar passado, mas com um pé no presente. Ruína tem similaridade com esse organismo dúplice, a meio caminho de duas condições opostas – vida e morte. É a emergência no presente de um passado que assombra, mas que também seduz. As fotos do prefeito-dublê atraem cada vez mais admiradores. São ruína antes de se tornarem futuro.

Cidade é uma saudade. Somos incapazes de palmilhar um quarteirão sem a presença do que falta. Não à toa, morar tem vizinhança sonora com namorar. O português é uma língua cheia de desvios. Tanto que inventou uma saudade apenas para si. O sentimento intraduzível é talvez o mais rico. Não se diz saudade noutro idioma. Etimologicamente, quem sabe as duas palavras até se afastem. Mas é no som que elas se traem: cidade/saudade, morar/namorar. Das cidades do interior do Ceará, do que mais sinto falta é das placas na entrada e na saída: “sejam bem-vindos” e “aqui fica uma saudade”. São cidades com início e fim. Cidades cujos desvios precisam ser inventados.

Diferente de Fortaleza, essa geografia que se confunde com o mar e o sertão. Plana, é uma cidade sem contornos, indiscernível, feita ao gosto de cada um. Hostil e acolhedora. Forasteiro ou nativo, cada morador vive uma cidade diferente. Também experimenta uma saudade diferente. Disso extraio uma última moral, que se materializa em forma de nova série de perguntas.

Qual é a cidade que você namora? De qual tem saudade? Por qual perde o fôlego? Em qual gosta de estar? Onde costuma se demorar?

*Crônica publicada no jornal O POVO, em 19/1/2017. 

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