Pular para o conteúdo principal

Arquivo

Uma pane no computador colocou tudo a perder, fora todo o escrito, duas páginas de lamentações atiradas diretamente a algum canto escuro de uma máquina cuja finalidade é gravar e manter a salvo o que pensamos e dizemos.

Não esta, esta cuidou em dissolver, um engenho feito para extraviar e não reter. Uma sensibilidade para soluções drásticas, exatamente como essas que evitamos na vida porque temos a certeza de que o tempo se encarrega do pior.

Ela, no entanto, perdeu. Como se tivesse consciência do risco e da dor.

Tratou de resolver o problema de fazer desaparecer oito mil caracteres num passe de mágica. Numa hora, palavras emaranhadas a sentimentos, um nó insolúvel que ganha forma à medida que é dito. Uma forma sem forma.

E, no instante seguinte, a tela azul, números e letras se alternando sob o regime nervoso de alguma ordem caótica, uma cor espectral que remete aos primórdios da informática abrindo-se como um portal diante dos olhos. No centro da tela, o reflexo do rosto agora sem expressão. Nem espanto nem agonia. Uma tristeza funda, ainda lodo, na qual chapinha, tentando o equilíbrio difícil.

Exatamente como foram os meses derradeiros, uma barafunda de sentimentos em rodamoinho, tudo embalado em fantasmagoria, até finalmente colidirem com esse muro invisível.

Até restar apenas insulto, melancolia, uma frágil exposição da dor, a acusação despejada com a facilidade de um abraço, a veleidade, o gesto radical caindo da boca, a palavra áspera soltando-se como carne do osso. 

Foi essa a narrativa que desapareceu. Essa a história que caiu no esquecimento. Esse o arquivo que o computador achou por bem amassar e jogar fora. 

E agora lamenta que ele mesmo não tenha sido capaz dessa barbaridade. 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

“Romerobritização” de Fortaleza

  Foi apenas quando li o anúncio prometendo uma “Aldeota no Eusébio” que me dei conta dessa “romerobritização” de Fortaleza, ou seja, a paulatina substituição de seus signos mais antigos (nem sempre bonitos, mas históricos) por uma estética não apenas nova, mas cafona e estridente, facilmente replicada em qualquer lugar. Uma metrópole feita por IA, com padrões copiados aqui e ali, espigões e requalificações, prédios espichados e um centro urbano ao Deus dará. Enfim, um aterro visual que impõe à cidade o apagamento de seu tecido e a rasura de seus marcos, mas sobre isso tenho falado tanto que me dá certa gastura. Um exemplo é a ponte velha, agora convertida em problema para o qual é preciso encontrar uma solução rapidamente, antes que algum enxerido sugira conservar o espaço, dando-lhe melhor uso, ou, o que é pior, ouvir as comunidades do entorno. E a resposta naturalmente é derrubá-la, já que não se pode atirá-la no mato, como seria do feitio do nativo urbano com ares de cosmopolit...

Coisa de pobre

  Inspirado no livro da moda, e dizer que um livro está na moda já pressupõe viés de classe num país de não leitores, pensei no que seriam as coisas de pobre. Seu ethos e marcas, suas especificidades e ritualísticas, suas vestimentas e modos de comer, habitar e viajar. Enfim, o conjunto mais ou menos heterogêneo de características (gostos, preferências, escolhas) que ajudam a montar a imagem mental que se tem do pobre no Brasil, no Nordeste, no Ceará. Tal empreitada antropológica iria requerer que o pesquisador deixasse de lado essa verdadeira tara da arte atual (cinema, televisão e mesmo a literatura) por retratar o 1% dos mais endinheirados, atraída sabe-se lá pelo quê – talvez pelas zonas cinzentas de moralidade de uma casta de privilegiados, como se o pobre fosse, além de desprovido materialmente, um quadro sem forma e fundo que não se prestasse a dramaticidades à altura das ambições estéticas contemporâneas. Como se fosse pobre também em valores, sentimentos e complexidade sub...

Brasil para colorir

Fiquei pensando nessa febre dos livros de pintar, os Bobbie Goods, brochuras terapêuticas que lideram rankings de vendas em eventos literários, os primeiros depois daquela pesquisa cujos resultados mostraram que o Brasil é majoritariamente um país de não leitores. Ou seja, somos mais como uma sociedade para colorir do que para ler, de preencher do que de entender, de repetir maquinalmente o gesto do que de suspender mecanismos rotinizados. Mais de contornar os problemas do que de deixar de lado esses “good feelings”, de vagarosamente ir ordenando tudo conforme uma paleta selecionada ao gosto de quem manuseia esse número finito de cores do que de aceitar que a realidade é informe e multicor. Enfim, talvez haja nessa mania uma chave qualquer para entender sabe-se lá que problemas atávicos, que retornam sempre pela porta dos fundos e aos quais respondemos com esses expedientes. Afinal, o que significa essa opção pela pintura em desfavor da palavra, do andamento irrefletido da mão no lugar...