Pular para o conteúdo principal

Novo exercício

É assim que me salvo, digo a mim mesmo. Assim que deixo pra trás, que recolho o que ainda há, que volto do mergulho e saio pela praia chutando pedra, que tenho os pés na areia quente mas continuo, assim que procuro dunas móveis, que identifico e misturo o corpo a uma geografia indistinta, assim que sento por horas à sombra e conto conchas e classifico cada uma segundo cor e ranhuras e características dos sons que carregam dentro de si, é desse modo tortuoso mas próprio que digo a mim mesmo que cada mergulho é diferente do anterior e que nenhum se repete, é assim que rezo e falo você logo estará pronto para outro, logo quererá novamente estar sob a linha da água como se prendesse a respiração antes de vir à tona, você vai querer queimar a pele novamente e correr até o mar, vai desejar o sorvete, que terá o mesmo sabor, vai andar pela calçada e olhar o trenzinho da alegria e vai rir e se imaginar dando uma volta ao som de funk porque nenhuma outra música faz sentido, você vai se convencer de que pode, de que tem forças suficientes, de que o amor é uma coisa boa, de que o bando de pardais que canta sempre ao fim da tarde canta noutras horas do dia, vai também dizer a si mesmo que maravilha é poder estar aqui no final da tarde onde antes só havia essa  dor e uma agonia de tirar o fôlego, vai percorrer a praia feliz e mais uma vez à procura de sabe-se deus o quê, vai parar pra assistir a um jogo de vôlei e depois montar na bicicleta e olhar o bronzeado de camiseta deixando marcas fundas, vai atravessar e quem sabe ainda evitar olhar uma outra parte daquele pedaço da cidade, mas o fato é que tudo estará esmaecido, as cores morrendo, a memória consumindo-se como fogo, os dias passados cedendo vez aos dias futuros.

Você dirá tudo isso a si mesmo antes de meia-noite, antes da próxima cerveja, antes que alguém se aproxime e pergunte se você tem um cigarro.  

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

“Romerobritização” de Fortaleza

  Foi apenas quando li o anúncio prometendo uma “Aldeota no Eusébio” que me dei conta dessa “romerobritização” de Fortaleza, ou seja, a paulatina substituição de seus signos mais antigos (nem sempre bonitos, mas históricos) por uma estética não apenas nova, mas cafona e estridente, facilmente replicada em qualquer lugar. Uma metrópole feita por IA, com padrões copiados aqui e ali, espigões e requalificações, prédios espichados e um centro urbano ao Deus dará. Enfim, um aterro visual que impõe à cidade o apagamento de seu tecido e a rasura de seus marcos, mas sobre isso tenho falado tanto que me dá certa gastura. Um exemplo é a ponte velha, agora convertida em problema para o qual é preciso encontrar uma solução rapidamente, antes que algum enxerido sugira conservar o espaço, dando-lhe melhor uso, ou, o que é pior, ouvir as comunidades do entorno. E a resposta naturalmente é derrubá-la, já que não se pode atirá-la no mato, como seria do feitio do nativo urbano com ares de cosmopolit...

Coisa de pobre

  Inspirado no livro da moda, e dizer que um livro está na moda já pressupõe viés de classe num país de não leitores, pensei no que seriam as coisas de pobre. Seu ethos e marcas, suas especificidades e ritualísticas, suas vestimentas e modos de comer, habitar e viajar. Enfim, o conjunto mais ou menos heterogêneo de características (gostos, preferências, escolhas) que ajudam a montar a imagem mental que se tem do pobre no Brasil, no Nordeste, no Ceará. Tal empreitada antropológica iria requerer que o pesquisador deixasse de lado essa verdadeira tara da arte atual (cinema, televisão e mesmo a literatura) por retratar o 1% dos mais endinheirados, atraída sabe-se lá pelo quê – talvez pelas zonas cinzentas de moralidade de uma casta de privilegiados, como se o pobre fosse, além de desprovido materialmente, um quadro sem forma e fundo que não se prestasse a dramaticidades à altura das ambições estéticas contemporâneas. Como se fosse pobre também em valores, sentimentos e complexidade sub...

Brasil para colorir

Fiquei pensando nessa febre dos livros de pintar, os Bobbie Goods, brochuras terapêuticas que lideram rankings de vendas em eventos literários, os primeiros depois daquela pesquisa cujos resultados mostraram que o Brasil é majoritariamente um país de não leitores. Ou seja, somos mais como uma sociedade para colorir do que para ler, de preencher do que de entender, de repetir maquinalmente o gesto do que de suspender mecanismos rotinizados. Mais de contornar os problemas do que de deixar de lado esses “good feelings”, de vagarosamente ir ordenando tudo conforme uma paleta selecionada ao gosto de quem manuseia esse número finito de cores do que de aceitar que a realidade é informe e multicor. Enfim, talvez haja nessa mania uma chave qualquer para entender sabe-se lá que problemas atávicos, que retornam sempre pela porta dos fundos e aos quais respondemos com esses expedientes. Afinal, o que significa essa opção pela pintura em desfavor da palavra, do andamento irrefletido da mão no lugar...