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Janela

Minha janela fica em frente ao aeroporto, mas dizer em frente não é muito preciso. Digamos que fica a alguns quilômetros do aeroporto e que daqui vejo os aviões decolando e pousando, escuto o som e me divirto imaginando os rostos na janela.

Me divertir é exagero, me divirto mesmo é pensando que poderia estar viajando agora, neste momento. Se eu fosse outra pessoa e não a pessoa que sou vivendo a vida que vivo. Não tenho problema com a vida que vivo, apenas gosto de pensar que, lá nas alturas, a quilômetros de distância, tem alguém com o rosto colado no vidro olhando pra baixo, talvez pra mim, e a gente não se reconheça.

Um dia, li que um boeing holandês tinha feito um pouso de emergência em Fortaleza. Parecia sério. Fiquei alarmado. Tudo que diz respeito a aviões e voos é alarmante. Leio turbulência e minhas mãos suam. Escrevo avião e tenho dor no estômago. Ironicamente, consumo muita informação sobre voos e aviões. É um modo de lidar com o perigo: estando perto.

Quando e se acontecer, quero estar ciente de tudo. Não faria a menor diferença, eu sei. Talvez fosse até pior. Não importa.

Como agora, estava escrevendo não lembro o quê nem pra quê, ou seja, estava mais ou menos como sempre estou. 

Era de tarde, depois do almoço, a hora mais sonolenta do dia. 

E de repente. Estava lá. O avião. O maior que já tinha visto. Parecia mentira. Uma nave espacial. Um avião. Levantando voo. Vagaroso. Diferente de tudo. Demorou a desaparecer, o barulho era mais alto, as cores, branco e laranja, diferentes do branco e vermelho e do azul das empresas aéreas que operam no aeroporto de Fortaleza.

Até que sumiu.

Lembrei dessa historinha boba quando vi hoje o vídeo do maior tubarão branco já registrado. Tem seis metros e meio, é fêmea e estava grávida. Foi o que li nos jornais.  

Como o avião, o tubarão aparece e desaparece. Lento, assustador, deslizando num vazio, rondando a gaiola, como se prestes a atacar ou a cair, como se movido por roldanas invisíveis.

Aviões e tubarões e os mecanismos secretos do movimento correto, nunca em falso. Exceto quando falham. 

Depois vai embora, e fica a sensação de que era maior do que de fato sempre foi. O grandioso ecoando no desejo de alargar ainda mais a experiência.