Pular para o conteúdo principal

Fiando-se



Desconfie de todo gesto sacrificial, esse que se reveste de uma áurea humana inatacável, que apela à oração mais íntima e se aninha num cadinho da alma tão escondido que acaba embolorando com o tempo.

Desconfie da bondade, mas só da bondade que usa paetês e plumas e sai à noite fantasiada para chamar a atenção de quem passa – a bondade despida, crua, essa que usa chinela de dedos e come de colher, pode continuar a admirá-la.
É verdadeira.

Desconfie dos bons sentimentos, mas apenas dos bons sentimentos que pregam anúncio na porta de casa informando: vendem-se bons sentimentos.

Desconfie de quem está sempre a falar do outro e quase nunca de si mesmo. Esconder o egoísmo, dissimulando-o ou tentando convertê-lo no exato oposto, o altruísmo, é tão ou mais escroto que admiti-lo. Tudo que é autêntico, até o egoísmo, é mais aceitável do que o falso, incluindo a preocupação.

Desconfie de quem detesta gente desconfiada ou faz de tudo para não desconfiar.

Desconfiar é um ato humano.

Quase tão humano quanto odiar ou perder.

Desconfie de quem foge da negatividade como o diabo da cruz.

Desconfie de quem acredita mais no azul do que no vermelho.

Desconfie do excesso e da falta, da demora e da pressa, do silêncio e da loquacidade.

Desconfie de quem escreve e de quem escuta.

Desconfie de quem se doa e de quem se nega.

De quem ama e de quem desama.

Desconfie de quem acredita na simplicidade e de quem torna tudo mais difícil.

Desconfie de quem, ao escrever, tenta fugir dos opostos, ou dos antípodas, ou das margens, preferindo o caminho do meio.

Desconfie de quem diz que o caminho do meio é sempre a melhor opção.

Desconfie da felicidade.

Desconfie da mãe, do pai, do filho e de quem mais estiver na sala.

Porque só quem desconfia pode acreditar no que quiser. O pio não tem opção. Está fadado à crença. É sua configuração padrão.

Já o descrente, esse pode tudo. 

Postagens mais visitadas deste blog

“Romerobritização” de Fortaleza

  Foi apenas quando li o anúncio prometendo uma “Aldeota no Eusébio” que me dei conta dessa “romerobritização” de Fortaleza, ou seja, a paulatina substituição de seus signos mais antigos (nem sempre bonitos, mas históricos) por uma estética não apenas nova, mas cafona e estridente, facilmente replicada em qualquer lugar. Uma metrópole feita por IA, com padrões copiados aqui e ali, espigões e requalificações, prédios espichados e um centro urbano ao Deus dará. Enfim, um aterro visual que impõe à cidade o apagamento de seu tecido e a rasura de seus marcos, mas sobre isso tenho falado tanto que me dá certa gastura. Um exemplo é a ponte velha, agora convertida em problema para o qual é preciso encontrar uma solução rapidamente, antes que algum enxerido sugira conservar o espaço, dando-lhe melhor uso, ou, o que é pior, ouvir as comunidades do entorno. E a resposta naturalmente é derrubá-la, já que não se pode atirá-la no mato, como seria do feitio do nativo urbano com ares de cosmopolit...

Coisa de pobre

  Inspirado no livro da moda, e dizer que um livro está na moda já pressupõe viés de classe num país de não leitores, pensei no que seriam as coisas de pobre. Seu ethos e marcas, suas especificidades e ritualísticas, suas vestimentas e modos de comer, habitar e viajar. Enfim, o conjunto mais ou menos heterogêneo de características (gostos, preferências, escolhas) que ajudam a montar a imagem mental que se tem do pobre no Brasil, no Nordeste, no Ceará. Tal empreitada antropológica iria requerer que o pesquisador deixasse de lado essa verdadeira tara da arte atual (cinema, televisão e mesmo a literatura) por retratar o 1% dos mais endinheirados, atraída sabe-se lá pelo quê – talvez pelas zonas cinzentas de moralidade de uma casta de privilegiados, como se o pobre fosse, além de desprovido materialmente, um quadro sem forma e fundo que não se prestasse a dramaticidades à altura das ambições estéticas contemporâneas. Como se fosse pobre também em valores, sentimentos e complexidade sub...

Brasil para colorir

Fiquei pensando nessa febre dos livros de pintar, os Bobbie Goods, brochuras terapêuticas que lideram rankings de vendas em eventos literários, os primeiros depois daquela pesquisa cujos resultados mostraram que o Brasil é majoritariamente um país de não leitores. Ou seja, somos mais como uma sociedade para colorir do que para ler, de preencher do que de entender, de repetir maquinalmente o gesto do que de suspender mecanismos rotinizados. Mais de contornar os problemas do que de deixar de lado esses “good feelings”, de vagarosamente ir ordenando tudo conforme uma paleta selecionada ao gosto de quem manuseia esse número finito de cores do que de aceitar que a realidade é informe e multicor. Enfim, talvez haja nessa mania uma chave qualquer para entender sabe-se lá que problemas atávicos, que retornam sempre pela porta dos fundos e aos quais respondemos com esses expedientes. Afinal, o que significa essa opção pela pintura em desfavor da palavra, do andamento irrefletido da mão no lugar...