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Suspensão

Lembro quando ainda criança, no meio da aula me perdia e só voltava a custo, às vezes porque a professora chamava pelo nome, às vezes porque tocava o sino do recreio e todas as crianças saíam em galope desenfreado. Muito tempo depois, já adulto e ainda desligado, passaria a me referir a esses momentos como suspensão. Porque eram de fato isso: um hiato no meio da rotina, um pequeno abismo gestado sob os pés por força não da imaginação voluntária. Os abismos que criava eram de outra natureza.

E não me perguntem qual, porque ainda hoje tenho dificuldades para compreender o que se passa quando, no meio da tarde ou da manhã, esteja ocupado ou à toa, o fluxo do tempo de repente soa antinatural, e cada objeto da casa ou do quarto assume feições assustadoramente fantásticas. É quando o hábito se desfigura, corroído por qualquer falta de sentido. 

No meio da conversa, uma boca se mexe. O que diz? O que quereria dizer se não estivesse dizendo o que diz? O que talvez dissesse não fossem as conveniências, o medo, o caminho trilhado mais por preguiça que por vontade? O que nunca dirá, ainda que sobrem vontade e desejo?  

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