Antes de sair de casa, tomou outra xícara
de café. Apanhou uma caneta e prometeu guardar silêncio ao longo
das próximas horas, fizesse chuva ou sol, morressem pandas ou não. Os pensamentos
assim, empurrando-se uns aos outros, como refugiados a desembarcar de um navio à
beira do naufrágio. Saiu. Voltou. Tinha esquecido o mp3, que pôs na mochila. Abriu
a geladeira mais uma vez. A garrafa cheia, tudo guardado, faltavam cervejas,
poucas frutas, nenhum chocolate, azeitonas vencidas, escassez de iogurte,
hambúrguer congelado, uma panela destampada. A água sempre com esse gosto estranho,
um sabor metálico, cheia de temperos. Considerou tomar outro banho, colocar
outra roupa, embarcar noutro ônibus e descer noutro ponto. Devolveu o mp3 à
mesa. Tampou a panela. Comeu uma azeitona. Gostou do sabor. Abriu a janela. Esperaria
que a chuva molhasse tudo.
Foi apenas quando li o anúncio prometendo uma “Aldeota no Eusébio” que me dei conta dessa “romerobritização” de Fortaleza, ou seja, a paulatina substituição de seus signos mais antigos (nem sempre bonitos, mas históricos) por uma estética não apenas nova, mas cafona e estridente, facilmente replicada em qualquer lugar. Uma metrópole feita por IA, com padrões copiados aqui e ali, espigões e requalificações, prédios espichados e um centro urbano ao Deus dará. Enfim, um aterro visual que impõe à cidade o apagamento de seu tecido e a rasura de seus marcos, mas sobre isso tenho falado tanto que me dá certa gastura. Um exemplo é a ponte velha, agora convertida em problema para o qual é preciso encontrar uma solução rapidamente, antes que algum enxerido sugira conservar o espaço, dando-lhe melhor uso, ou, o que é pior, ouvir as comunidades do entorno. E a resposta naturalmente é derrubá-la, já que não se pode atirá-la no mato, como seria do feitio do nativo urbano com ares de cosmopolit...