Com ar pesaroso, o garçom aponta a
televisão e diz que a outra também foi mutilada, e por mutilada quer dizer que alguém ia
passando na rua e resolveu apedrejar os dois aparelhos, aparentemente sem razão
para tal, de maneira que agora o homem de cabelo cortado bem rente ao couro me
encara como se buscasse investigar na minha incipiente reação facial o quão fundo
aquela informação parecia ter batido, e qual não é a sua surpresa quando sorrio
e digo sem medo de ser feliz “as pessoas ficam realmente possuídas na festa de
Momo”, antecipando-me, portanto, à tentativa do garçom de talvez não procurar
culpados, mas de checar as consequências da narrativa que acabara de contar, e
foi nessa hora que, preferindo encurtar a conversa a continuar naquele jogo
de gato e rato, pedi um prato executivo de filé à parmegiana, que é o que
sempre peço naquele restaurante.
Foi apenas quando li o anúncio prometendo uma “Aldeota no Eusébio” que me dei conta dessa “romerobritização” de Fortaleza, ou seja, a paulatina substituição de seus signos mais antigos (nem sempre bonitos, mas históricos) por uma estética não apenas nova, mas cafona e estridente, facilmente replicada em qualquer lugar. Uma metrópole feita por IA, com padrões copiados aqui e ali, espigões e requalificações, prédios espichados e um centro urbano ao Deus dará. Enfim, um aterro visual que impõe à cidade o apagamento de seu tecido e a rasura de seus marcos, mas sobre isso tenho falado tanto que me dá certa gastura. Um exemplo é a ponte velha, agora convertida em problema para o qual é preciso encontrar uma solução rapidamente, antes que algum enxerido sugira conservar o espaço, dando-lhe melhor uso, ou, o que é pior, ouvir as comunidades do entorno. E a resposta naturalmente é derrubá-la, já que não se pode atirá-la no mato, como seria do feitio do nativo urbano com ares de cosmopolit...