Passado tanto tempo, talvez não houvesse sequer uma resposta, método prático que não resultasse em gasto excessivo de energia nem fratura dolorida, um aceno discreto, leve, que fosse possível aliviar no tempo do semáforo, que fosse possível.
Procurava desatento havia meses, mencionara essa remota possibilidade em conversa reservada, esquadrinhar situações, antecipar negativas etc. Sem atropelos, tinha cumprido o roteiro do adolescente de 17 anos.
Ensaiava, sobretudo. Uma vida inteira de pré-projetos, rascunhos, antessalas, tudo a meio caminho, irrealizado por parte, equidistante.
Desafio, ocupação plena de ranhuras e cavidades, um preenchimento acabado, impossível, nervoso, errado, tudo virtual.
E se? Que bela merda isso tudo, acusava-se frequentemente com a mesma ferocidade com que atacava desafetos, que bela merda estar a dois mil anos luz.
Vejam como parece ridículo, impunha o convite a amigos, reparem atentamente em cada lance, o enredo, acompanhem toda a dramaturgia barroca mantida em fogo baixo, latente, a música, caracterização, entrega dos atores etc., e projetava mentalmente a breve história na parede rabiscada do comércio.
Sem amargura, alguém gracejaria. Sem amargura, ele repetiria baixinho.
Depois de oito ou nove cervejas, mais uma capirosca, refém desse riso grave de bêbado, deixou cair: “O tempo todo esteve aqui comigo, o tempo todo puxava a manga da minha camisa e me pedia o que quer que fosse, me pedia o que não podia, pedia apenas que ficasse ou nem pedia nada”.
O tempo todo eu não entendi.
Foi apenas quando li o anúncio prometendo uma “Aldeota no Eusébio” que me dei conta dessa “romerobritização” de Fortaleza, ou seja, a paulatina substituição de seus signos mais antigos (nem sempre bonitos, mas históricos) por uma estética não apenas nova, mas cafona e estridente, facilmente replicada em qualquer lugar. Uma metrópole feita por IA, com padrões copiados aqui e ali, espigões e requalificações, prédios espichados e um centro urbano ao Deus dará. Enfim, um aterro visual que impõe à cidade o apagamento de seu tecido e a rasura de seus marcos, mas sobre isso tenho falado tanto que me dá certa gastura. Um exemplo é a ponte velha, agora convertida em problema para o qual é preciso encontrar uma solução rapidamente, antes que algum enxerido sugira conservar o espaço, dando-lhe melhor uso, ou, o que é pior, ouvir as comunidades do entorno. E a resposta naturalmente é derrubá-la, já que não se pode atirá-la no mato, como seria do feitio do nativo urbano com ares de cosmopolit...
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