Pular para o conteúdo principal

Crítico desanca 'pensamento magro'

Anônima na praia lê atentamente as recomendações d'O Crítico.
Sem alarde, o barão das letras recomenda; mais que recomenda, aconselha. Talvez seja até melhor dizer: o barão das letras “estabelece” o seguinte -
A partir de agora, os grandes assuntos da coletividade jamais serão motivo de chacota, o pensamento crítico requer envergadura e preparo acadêmico, as questões estruturantes demandam polivitamínico que reúna concentração, leitura, empáfia e linguagem, os desafios da cearensidade não devem, portanto, ficar reféns de energúmenos desidratados nem de órfãos de revistas marginais de péssimo gosto.
Tampouco de uma raça em tudo pior que as duas anteriores: a dos nostálgicos.
A complexidade do atual momento dispensa solenemente manobras de rasa projeção intelectual, a estas preferindo jogo mais cerebral, a produção engajada no cumprimento das normas da ABNT, o sudoku cifrado que, não obstante tenha cheiro de fraude literária, soa artístico e, mais que soa, assemelha-se a coisa autêntica.
Embora não o sendo.
Isso dito, não custa em paralelo alertar: a demência virtual grassa, os acintes são recorrentes e a burrice campeia travestida de erudição. Amantes da tecnologia e redes sociais formam um time cuja prepotência só é menor que sua falta de traquejo para falar de qualquer outro tópico que não sejam gadgets, mídias, audiência etc.
É forçoso reconhecer o talento e, mais que talento, a predisposição quase genética ao descalabro alimentada por certo tipo de gente, que, em face de um problema X, rapidamente interpõe o chiste.
Uma geração perdida, outrossim.
Tenho ânsia de vômito, tenho cólica, tenho cefaleia e diarreia. O intestino claudicante imediatamente acusa quando leio qualquer menção a certo grupo da cidade que tem por hábito enfileirar galhofas internet afora, quando, também cumpre deixar claro, o Ceará vivencia etapa historiográfica das mais notáveis.
Temos aí uma Copa do Mundo, por exemplo, torneio do espírito afortunado.
O que peço é: vedem-se às piadas, prescindam do acesso ao site, não curtam perfis nas redes. O pensamento crítico, único equipado de força e verdadeira potência transformadora, agradece.
Assinado: o crítico.

Postagens mais visitadas deste blog

“Romerobritização” de Fortaleza

  Foi apenas quando li o anúncio prometendo uma “Aldeota no Eusébio” que me dei conta dessa “romerobritização” de Fortaleza, ou seja, a paulatina substituição de seus signos mais antigos (nem sempre bonitos, mas históricos) por uma estética não apenas nova, mas cafona e estridente, facilmente replicada em qualquer lugar. Uma metrópole feita por IA, com padrões copiados aqui e ali, espigões e requalificações, prédios espichados e um centro urbano ao Deus dará. Enfim, um aterro visual que impõe à cidade o apagamento de seu tecido e a rasura de seus marcos, mas sobre isso tenho falado tanto que me dá certa gastura. Um exemplo é a ponte velha, agora convertida em problema para o qual é preciso encontrar uma solução rapidamente, antes que algum enxerido sugira conservar o espaço, dando-lhe melhor uso, ou, o que é pior, ouvir as comunidades do entorno. E a resposta naturalmente é derrubá-la, já que não se pode atirá-la no mato, como seria do feitio do nativo urbano com ares de cosmopolit...

Coisa de pobre

  Inspirado no livro da moda, e dizer que um livro está na moda já pressupõe viés de classe num país de não leitores, pensei no que seriam as coisas de pobre. Seu ethos e marcas, suas especificidades e ritualísticas, suas vestimentas e modos de comer, habitar e viajar. Enfim, o conjunto mais ou menos heterogêneo de características (gostos, preferências, escolhas) que ajudam a montar a imagem mental que se tem do pobre no Brasil, no Nordeste, no Ceará. Tal empreitada antropológica iria requerer que o pesquisador deixasse de lado essa verdadeira tara da arte atual (cinema, televisão e mesmo a literatura) por retratar o 1% dos mais endinheirados, atraída sabe-se lá pelo quê – talvez pelas zonas cinzentas de moralidade de uma casta de privilegiados, como se o pobre fosse, além de desprovido materialmente, um quadro sem forma e fundo que não se prestasse a dramaticidades à altura das ambições estéticas contemporâneas. Como se fosse pobre também em valores, sentimentos e complexidade sub...

Brasil para colorir

Fiquei pensando nessa febre dos livros de pintar, os Bobbie Goods, brochuras terapêuticas que lideram rankings de vendas em eventos literários, os primeiros depois daquela pesquisa cujos resultados mostraram que o Brasil é majoritariamente um país de não leitores. Ou seja, somos mais como uma sociedade para colorir do que para ler, de preencher do que de entender, de repetir maquinalmente o gesto do que de suspender mecanismos rotinizados. Mais de contornar os problemas do que de deixar de lado esses “good feelings”, de vagarosamente ir ordenando tudo conforme uma paleta selecionada ao gosto de quem manuseia esse número finito de cores do que de aceitar que a realidade é informe e multicor. Enfim, talvez haja nessa mania uma chave qualquer para entender sabe-se lá que problemas atávicos, que retornam sempre pela porta dos fundos e aos quais respondemos com esses expedientes. Afinal, o que significa essa opção pela pintura em desfavor da palavra, do andamento irrefletido da mão no lugar...